Quando um livro vira clássico


“Quando a Rua Vira Casa”, de Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello e Orlando Mollica, publicado originalmente em 1989, com apresentação de Carlos Nelson Ferreira dos Santos, chega à sua quarta edição, pela Editora EDUFF, com a apresentação de Felipe Berocan Veiga e Soraya Silveira Simões.
O livro é o relatório final de um trabalho de equipe desenvolvido em 1979, no bairro do Catumbi e na Selva de Pedra, na cidade do Rio de Janeiro, junto ao Centro de Pesquisas Urbanas do Instituto Brasileiro de Administração Municipal[1]. Com o enquadramento conceitual e metodológico à cargo de Arno Voguel e Marco Antonio Mello, e registros visuais de Orlando Mollina, o relatório da pesquisa “Espaço Social e Lazer, Estudo Antropológico e Arquitetônico do Bairro Catumbi” se consolida como uma leitura densa, de um recorte metropolitano carioca, abarcando a materialidade e o simbólico, as afetividades e o cotidiano, com cerne antropológico e viés crítico.
A apresentação do livro, escrita por Felipe Berocan Veiga e Soraya Silveira Simões, é preciosa ao discorrer sobre a necessidade e o quilate da quarta edição. Conduz o leitor à conjuntura política, social e econômica que animou o trabalho de pesquisa em um período de intensas transformações urbanísticas que adaptavam a cidade do Rio de Janeiro a um projeto de integração nacional, com peso na concepção urbanística racional e progressista. Simultaneamente, remontam o estado da arte das pesquisas sobre o urbano, deflagrando por um lado um certo ineditismo do investimento antropológico para produzir compreensões sobre o fenômeno urbano no Rio de Janeiro, e por outro a necessidade de aproximação dos conceitos e metodologias das ciências sociais ao campo da arquitetura e do urbanismo.
A costura da conjuntura, de questões urbanísticas, antropológicas, sociológicas e políticas mais do que ratificar a relevância do trabalho como um marco nas pesquisas do campo disciplinar da antropologia urbana, atualiza o conteúdo e endereça o livro como essencial à formação dos que se dedicam aos fenômenos urbanos, aos que produzem pesquisas nas cidades, aos que fazem pesquisas sobre as cidades e aos que nutrem algum interesse pelo Rio de Janeiro e a dinâmica e história dos seus bairros. Revela ainda que a quarta edição é lançada como uma espécie de acerto de contas, um ajuste moral, reparando equívocos das edições anteriores, cujas fichas catalográficas confundiam créditos institucionais com autorais, além de indexar o livro nas áreas de Renovação Urbana e Planejamento Urbano ao invés de Antropologia Urbana.
Percorrendo os estímulos que deram origem ao trabalho, o Catumbi foi tomado como estudo de base, em virtude da identificação do poder público de um modelo urbano obsoleto, com base em relatórios técnicos de urbanistas nacionais e internacionais, para o qual era indicado a renovação urbana. E para avaliar o que estava sendo proposto como renovação urbana, os pesquisadores tomaram a Selva de Pedra como comparativo, caso de controle, por ser um lugar cujas propostas urbanísticas modernas já estavam vigindo.
Pondo em prática a tradição etnográfica, no trabalho de campo os pesquisadores empreenderam entrevistas, observação direta e participante e produziram registros visuais (mapas, fotos, filmagens), tendo como objetivo iluminar mais do que a materialidade dos espaços, mais do que a transformação física. Tomaram como objetivo a busca dos verdadeiros efeitos das intervenções urbanas. Ousaram avançar do ponto em que o planejamento, do ponto de vista técnico, urbanístico, administrativo e político era tomado como finalizado. E o resultado do empenho dos pesquisadores fez sobressair os usos dos espaços coletivos, as pessoas, as relações, os valores, os ritmos, o cotidiano.
Na introdução os pesquisadores apresentam o estudo, primeiramente marcando o objetivo de tratar das formas de apropriação de espaços de usos coletivos, para melhor compreender os processos de desenvolvimento da cidade a partir do bairro do Catumbi. Explicitam no investimento o cunho reflexivo, revendo e criticando o que estava sendo proposto, executado e defendido por planejadores e pelo poder público. E apostam na relativização das concepções e entendimentos sobre o espaço como um diapasão para uma leitura densa da apropriação e usos dos espaços coletivos no bairro, avaliando os impactos das intervenções na área.
No capítulo intitulado Primeiros Contatos, descrevendo a chegada a campo, os pesquisadores registram um momento liminar em que o bairro já havia sofrido com uma série de desapropriações e a Associação de Moradores atuava mobilizando a população para conter a derrubada de seus últimos quarteirões. E ao explorar os limites do bairro atentam para os efeitos das transformações urbanísticas na experiência e fala dos habitantes. Percebem que os informantes percorrem e descrevem o bairro lançando mão de uma memória, falando das estruturas que já não mais existem. E tal fenômeno fora tomado pelos pesquisadores como uma espécie de “geografia fantástica”. Dando corpo ao capítulo, passam a etnografar as ruas, associando descrição densa e identificação de comportamentos.
Em “Os trabalhos e os dias” os pesquisadores passam a etnografar o familiar, o que todos sabem mas nem todos dão conta, compondo uma gramática do social, tornando-o inteligível. Para tal, investigam como os moradores do bairro classificam os espaços. E combinam um sistema de espaços, um sistema de valores e um sistema de atividades para criar contextos nos quais papeis podem ser desempenhados. Com efeito, chegam na diversidade do bairro e a exploram como princípio estrutural para as relações sociais.
No capítulo seguinte exploram o “Caso de Controle: a “Selva de Pedra”. Sob a hipótese da diferença oposicional em relação aos processos de apropriação dos espaços de uso coletivo, pontuam que o que era espontâneo no Catumbi na Selva de Pedra era planejado. Descrevem a forma, os objetivos e os usos dos espaços na intervenção racionalizadora, apontando o objetivo social de produzir “condições razoáveis” no projeto que previa o adensamento de uma área com a construção de um conjunto de edifícios. Problematizam a ambivalência da “vida comunitária” na fala dos moradores, que negam a denominação “conjunto” para falar da “Selva de Pedra” e que recorrem à concepção estratégica da homogeneidade acionada por critérios de classe social, diluída em filtros como renda, instrução, lazer e/ou categoria profissional. E a homogeneidade da “vida comunitária” em um espaço “selecionado” revela questões problemáticas na desintegração do conjunto com o bairro, exposta pelos informantes da Selva de Pedra nas preocupações com a violência, segurança e privacidade. A desintegração, expressa em acusações e suspeitas, chega a produzir, alimentar e direcionar um estigma aos habitantes do conjunto vizinho, a Cruzada São Sebastião, abordada na dualidade pobres e ricos, seguindo o foco nos usos dos espaços comuns, dos logradouros públicos.
Na “Conclusão: rua ou “Selva de Pedra”? as modalidades de apropriação dos espaços de uso comum são postas lado a lado, o Catumbi como “o mundo da rua” e o caso de controle como “Selva de Pedra”, para estabelecer conclusões gerais que desmistificam a cidade funcional. Antes da condenação completa de um modelo ou outro, a pesquisa abre caminho para um dilema acionado pela oposição entre a tradição e a modernidade. E se desvencilha de uma formulação simplista e maniqueísta ou de uma sentença conclusiva ao exaltar o complexo e o diverso e a união da forma e da essência dos espaços correspondentes aos sentidos conferidos pela sociedade e pela cultura.
A rigor, a pesquisa reverbera como uma crítica ao fazer planejamento que exaltava o racionalismo, assumia o utopismo, mas não raro menospreza as vivências, as tramas culturais, históricas e afetivas que tecem os sentidos do urbano. E dando clareza à crítica ao racionalismo, na conclusão uma frase sintetiza o impulso do trabalho: “O mundo das práticas cotidianas tem desafiado abertamente a paixão racionalista” (p.164)
O relatório é virtuoso do ponto de vista metodológico, incitando e valorizando abordagens qualitativas, densas, vigorosas na dimensão simbólica, com sólidas referências do fazer antropológico e abertura para o diálogo não hierárquico entre diferentes saberes, do científico ao popular, além da sutileza eloquente de usar não apenas as fotografias como representação falaciosa do real, mas também desenhos e mapas, conferindo o devido crédito às subjetividades que atravessam a representação dos espaços.
Em acréscimo à robustez metodológica, é preciso destacar que se trata de um trabalho fecundo no que tange as possibilidades de compreensões acerca da atualização de práticas e discursos urbanísticos. Uma leitura providencial, cujo teor crítico se desdobra em questões complexas perpassando a conjuntura política e econômica e as práticas cotidianas, que traduzido para termos atuais, diz respeito aos impactos das tendências globais no local.
Com o neoliberalismo tocando de modo paradigmático as cidades, a quarta edição do “Quando a Rua vira Casa” chega ao público leitor com a pompa de um clássico. Um clássico não no sentido de algo velho e sim no sentido de algo pertinente em qualquer tempo. Guardadas as especificidades, ter em mãos uma abordagem qualitativa da modernização de um bairro da cidade do Rio de Janeiro favorece compreensões sobre as cidades que acatam os imperativos de se tornarem competitivas. A renovação urbana de lugares justificada pela defasagem de um modelo urbano, apresentada como estímulo para a produção da pesquisa no Catumbi, de algum modo se relaciona com os disseminados projetos de revitalização de áreas diagnosticadas como degradadas estrutural, social e/ou ambientalmente. E até o acusado “pouco caso” do poder público com a cultura, história e vivências dos moradores dos locais que “carecem” de uma renovação urbana pode ser sugerido como que um ato de anuência para o que na atualidade se problematiza como gentrificação.
Ao passar a limpo a modernização da cidade que obedecia uma gramática científica e progressista, o estudo de caso apresentado no livro registra um momento da cidade, exibe um tipo de análise de antropologia urbana e fomenta a complexificação de questões relacionadas com a produção do urbano, que permanecem na ordem do dia, tornando-se uma leitura obrigatória, e bastante agradável, que ilumina e inspira perspectivas do urbano em geral e do Rio de Janeiro em particular.
[1] Criado em 1952 no Rio de Janeiro, o instituto é uma associação civil, sem fins lucrativos ou vínculos partidários, com o objetivo de estimular o desenvolvimento da administração pública, para a formulação de políticas e prestação de serviços, especialmente na esfera municipal, em prol de uma sociedade justa e democrática. Para saber mais: http://www.ibam.org.br/home (acessado em 02 de Junho de 2017)

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