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"A Negociação" bem negociado

Se você ainda não viu o filme, e fica chateado quando te contam a história, pode parar sua leitura por aqui. O gala Richard Gere está de volta. Mas não esperem nesse retorno o mesmo nível das produções que o consagraram. E Susan Sarandom também reapareceu! Eis dois atrativos que adoçam a boca dos amantes do cinema, tornando “A negociação” uma produção a ser conferida. De Nicholas Jarecki, o roteiro é bom. Um mega empresário, no suposto auge de sua carreira, decide mudar de vida e vender sua empresa. A decisão desperta suspeitas de sua filha, e antes de conseguir fechar esse grande negócio o empresário de envolve em um sério acidente automobilestico com sua amante. E as consequencias do acidente comprometem todos os seus planos.  Essa é a base para o roteirista explorar questões éticas. Aborda desde o mundo dos negócios, passando pelas tramas policiais e jurídicas, sendo incisivo nas tensões sociais como o racismo e as relações de afeto e confiança na célul...

Sobre jornalismo e violência

Cena 1 Um escudo da corporação, uma mesa adornada com munição, armas de fogo e drogas embaladas, tudo o quanto foi apreendido em uma ação policial. . Cena 2 No contra-luz uma pessoa com a voz alterada dá um testemunho sobre determinada ocorrência. Cena 3 A documentação usada na burocracia corporativa é exibida dando destaque para o nome dos envolvidos e as acusações. Cena 4 A população indignada se aglomera aos gritos numa determinada localidade, apelando para que haja justiça em tal caso. Nessas três cenas corriqueiras se enquadram grande parte das reportagens sobre violência e criminalidade. E mirando nelas convém refletir sobre a forma e função do jornalismo no Brasil. Que a mídia tem o poder de formar opiniões que se alastram na sociedade temos um consenso. A problemática surge a partir do momento em que a mídia não se compatibiliza com tamanha responsabilidade. Grosso modo, opina mais do que investiga, e incita mais o acaloramento das emoções do que...

Medianeras

Lançado em 2011, com direção e roteiro assinados por Gustavo Taretto, Medianeras é um filme inquietante. O argumento central é o quanto a arquitetura e o planejamento urbano influenciam nossas vidas. E para encaminhar esta reflexão, o autor se vale de uma trama romântica entre Martín e Mariana, interpretados por Javier Drolas e Pilar Lopez de Ayala. De início, apresenta Buenos Aires, explicando ser uma cidade super populosa em um país quase deserto. E esta é a contradição inaugural para expressar a vida moderna na Argentina. Todavia, não é a única contradição. A narrativa do personagem, um observador quase filosófico, assinala que prédios grandes são construídos ao lado de prédios pequenos, que um prédio com estilo francês está ao lado de um prédio sem estilo algum, e que a falta de critérios na construção dos prédios é a mesma que aproxima pessoas muito distintas. No entanto, esta mesma forma de aproximação fragmenta socialmente as pessoas, identificando-as por s...

Premiação do Cinema Brasileiro

O cinema é a arte de fazer sonhar. Se um filme consegue fazer o espectador se desligar da realidade, ele funcionou. E embora o deslumbramento do espectador seja a função consagrada da sétima arte, um filme tem inúmeras possibilidades de ser bem sucedido. E esta infinidade de funções é o que percebo como o elemento em suspeição nas premiações. As premiações são criadas por motivos específicos, embora pareçam apontar objetivamente para o prestígio de bons trabalhos. A história da origem do Oscar é diferente da história do Kikito ou do Urso. Quiçá do Framboesa! E, no caso, o Prêmio do Cinema Nacional é uma celebração com o entusiasmado objetivo de dar visibilidade à produção nacional, com foco na diversidade que nos é peculiar. O evento incita produtores, seduz patrocinadores e ganha expressão para propor mais e maiores incentivos públicos.  Além dos objetivos "políticos", que nem sempre são levados em conta nas glamorosas ou estrambólicas coberturas, há um distancia...

Para Roma com Amor

Woody Allen causa. Após ignorar, tanto quanto a Deus, o mais badalado evento de premiação do cinema, em que seu filme "Meia noite em Paris" ganhou a estatueta na categoria de melhor roteiro, o ator / roterista / diretor partiu para mais um aventura: de Paris para Roma. O humor mal humorado, a debilidade física, a religião, a fascinação e aversão aos relacionamentos, as mulheres lindas e envolventes, os homens tolos e seduzidos, o deboche à psicologia e os planos ridículos que mitigue uma vida fracassada são os ingredientes sempre presentes em seus filmes, e em "Para Roma com amor" não foi diferente. Uma Roma e quatro histórias. O sucesso bate na porta de um, o amor invade a casa de outro, a família americana chega em Roma, e a família tradicional italiana é capturada pelo empreendedorismo americano. A insolidez, o imediatismo, o volúvel e o inusitado vão marcando os contrapontos entre o continente europeu e o americano, dois mundos que se atraem. Combina...

Reflexões sem brilho por trás das lentes

Acompanho o Plano Municipal de Habitação de Interesse Social do Rio de Janeiro. Não como socióloga, mas filmando e fotografando. Embora eu exerça funções bem variadas, uma função nunca anula a outra. Ou seja, como fotógrafa não deixo de ser socióloga e publicitária. Assim como quando socióloga e publicitária a fotógrafa não morre. Enfim, o que quero dizer é que mesmo sendo incumbida do registro audiovisual, tenho considerações a respeito da atuação do poder público, do setor acadêmico e o da população civil em relação aos projetos de habitação de interesse social. Primeiramente, acompanhar as oficinas para o plano modificaram minha percepção em relação ao funcionalismo público. É um clichê a idéia de que os funcionários públicos não trabalham. Eu concordava com essa crítica, mas é uma injustiça cruel. Os funcionários públicos trabalham e muito. São inteligentes, articulados, críticos e producentes. Todavia, suas atuações têm limitações políticas, e não há boas intenções profissio...

O Corvo

Do mesmo diretor de “V de Vingança”, James McTeigue , “O Corvo” fora aguardado com muita expectativa. E para os fãs de “V de Vingança”, com certeza “O corvo” foi um balde de água muito fria. Mas nem por isso a frustração é o resumo dessa história.  Deixando de lado o viés político que tornou-se a insígnia da produção já consagrada de McTeigue, “O corvo” é um filme com muitos méritos. Começando pelos atores, John Cusack  e Lucke Evans acreditam e acabam se destacando. O primeiro como um problemático artista, e o segundo como um incansável investigador. A produção de arte ambienta com segurança a trama em Baltimore em meados do século XIX. O roteiro é ótimo e foi muito bem executado. A montagem do filme não é meramente correta, é empolgante. E se todos os méritos técnicos não são convincentes, o roteiro além de trazer à baila a angústia de um artista específico, Edgar Allan Poe, expõe conflitos e vertentes de um período, como o desenvolvimento das ciências necrófi...