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Mostrando postagens de Março, 2012

O Narciso que acha feio o espelho

Diariamente as pessoas são testemunhas de sérios problemas causados pela desonestidade e seus derivados nas formas de gerir o que pretensamente chamamos de bem público. Mas é necessário que as ações danosas recorrentes sejam relatadas pela imprensa como um fato isolado repugnante, para que as autoridades tomem alguma providência. 


Costumo condenar bastante nossos representantes, mas seria ingênuo acreditar que a falta de ética deles não é um reflexo da falta de ética da sociedade como um todo. As pessoas acham tranquilo passar na frente porque conhecem fulano e sicrano. Adoram a distinção de um grupo, o privilégio numa indicação por conta de um sobrenome. E nem pensam duas vezes em dar uma volta mentindo isso ou aquilo, afinal não é nada tão prejudicial assim. 


Somados os casos pequenos, isolados, temos uma sociedade altamente permissiva com o dar um jeitinho, com o "se dar bem". E na contra mão nos enchemos de indignação com as falhas na conduta de quem nos representa. Sejamo…

O surpreendente em "Albert Nobbs"

Surpreender. Eis um desejo comum aos produtores culturais. Todavia, o surpreendente parece uma feliz realização quando não se leva em conta que pode ser fruto tanto de considerações positivas quanto negativas. E nesta concepção do surpreendente entre o bom e o ruim pairar o filme Albert Nobbs.
O roteiro é muito bom, baseado no conto do romancista irlandês George Moore. A produção foi feita pela Irlanda e Reino Unido, e o filme dirigido por Rodrigo García. A história se passa na Irlanda, no século XIX. Trata-se de um drama, a trajetória de uma mulher que se passa por homem para vencer as dificuldades de  viver numa sociedade tradicional.
Trabalhando como garçom, a mulher junta dinheiro para realizar o sonho de ter um pequeno comércio. No desenrolar da história entram em cena questões que marcam o período, como a escassez de empregos, a vulnerabilidade dos pobres e especialmente das mulheres, as epidemias e a esperança de fazer a vida na América.
As atuações de Glen Close e Janet Mc T…

Premiação a La Grega

Ainda na levada de filmes que concorreram ao Oscar em 2012, hoje o comentário é sobre “Separação”, filme com duas indicações, uma para melhor roteiro original e a outra para melhor filme estrangeiro. Levou a estatueta como melhor filme estrangeiro.

Trata-se de uma produção iraniana, do diretor Asghar Farhad. O diretor é também quem assina o roteiro, um drama ousado. Da repetição cotidiana e do ritmo lento, peculiares ao cinema iraniano, o roteiro trata de um casal recém separado e dos problemas decorrentes desta separação, enveredando o espectador por situações que abordam os limites morais, religiosos e jurídicos.

O que aos nossos olhos parece um desconforto passível de acontecer a qualquer um, em qualquer canto, a qualquer momento, no Irã é um grande tabu. E a coragem do diretor em apresentar os descompassos do Irã em relação a instituições já bem consolidadas no ocidente é um dos principais destaques desta produção. O outro destaque está também nos recursos narrativos. O diretor se…

"O Artista" ou a metalinguagem premiada

O mundo acelerou. A vida e as formas de comunicação, consumo e entretenimento se sofisticaram. E o registro dessas mudanças pode ser feito tanto de forma acadêmica, sistemática, rigorosa e critica, quanto de modo sensível. Traçar um panorama técnico e social da evolução do cinema em Hollywood, de modo sensível, a partir do drama do Artista, parece ter sido a feliz ideia do roteirista e diretor Michel Hazanavicius. Filmando em preto e branco e “sem som” o que era uma feliz ideia transformou-se em virtuosa ousadia.

O artista, comediante de cinema mudo, com uma carreira gloriosa, em meio aos flashes se depara com uma fã. A fã passa a fazer figuração e ao reencontrá-lo o encanto foi o sentimento recíproco. Ele dá para ela o toque de Midas, o diferencial, uma pinta no rosto. A partir de então as trajetórias profissionais se invertem. Ele vai do sucesso ao esquecimento, e ela do anonimato ao sucesso.

O romance atravessa o período de crise do pós guerra, revela as mudanças técnicas de produção…