O blogger parece estar jogado às traças. Só parece, não se iluda. Quase que diariamente venho aqui lamber a cria. Revejo os comentários e visito o blogger dos comentadores. É uma forma de me redimir pelo distanciamento, afinal, noto que atualização não vem sendo o forte dos bloggueiros que mantenho algum contato.
Navio naufragado na Itália, sexo sem consentimento em rede nacional, Luiza no Canadá, SOPA e um sem número de novidades animam a internet. Todas as vezes que vou escrever fico ponderando o que será que tem maior importância para se tornar um post? Tudo e nada.
Se a internet nos dá o poder de gerar conteúdos, por que será que nos conformamos em reproduzir, passar adiante, o que está pronto? Essa questão é o meu estímulo para tratar de uma discussão bastante específica, porém no bojo da comunicação e das mídias, que é o conteúdo dedicado ao público infantil.
Embora seja ignorado por boa parte da população, a concessão para emissoras de televisão prevê horários para programação infantil, com informação, cultura e lazer apropriados para este público. E não se pode negar que alguns esforços foram felizes no sentido de fornecer um entretenimento de qualidade. Todavia, as boas intenções em gerar programas com conteúdos educativos esbarram nas questões de redução dos custos de produção.
Um exemplo ímpar da tensão entre o desenvolvimento do entretenimento de qualidade para o público infantil e a redução dos custos de produção é o da empresa de Willian Hanna e Joseph Barbera.
Esta empresa de animação criou sucessos como Zé Colméia, Pepe Legal, Bibo Pai e Bob Filho, Olho vivo e Faro Fino, Os Jetsons, Jonhy Quest, Os Flinstons e o até hoje aclamado Scooby Doo. Todavia, foi também esta empresa que deixou para trás a produção de animação criteriosa e exaustiva com base cinematográfica, que empregava muitos desenhistas e era custosa em tempo e recursos, para uma produção destinada à televisão, que fazia o maior uso possível de um fundo estático, dando movimentos repetidos para os desenhos em primeiro plano.
Descriminando a mudança no padrão de produção: reduz o número de empregados (desenhistas, roteiristas, arte finalistas e demais), reduz o número de suprimentos (papéis, tintas e equipamentos) e de tempo de produção, aumenta exponencialmente a quantidade de episódios, reduz o preço da produção dos episódios e sobreforma o das séries (o desenho de um episódio é aproveitado em outros), amplia o potencial de lucro dos produtores e reduz significativamente a quantidade das sinapses dos consumidores. Um paradigma!
No Brasil as emissoras abertas de televisão investiam em programas para público infantil, muitas das vezes com auditório. Havia apresentadores, bonecos, títeres, sorteios, brincadeiras, estímulo ao desenho, pintura, dança, música, artes em geral e até noções de cidadania, além de blocos com desenhos animados. Esses programas certamente tinham custos elevados com elenco, figurino, maquiagem, iluminação, sonoplastia, cenários, roteiro, edição, no que possa minimamente ser descrito. Agora, fazendo a vez da programação infantil, o que há é um fundo fixo e um ou dois apresentadores, falseando mais do que a falsidade pode falsear. E para não serem acusados de colocar desenho após desenho, algumas emissoras se dignam a sortear bugigangas para quem liga e participa de alguma brincadeira.
Mesmo inconvenientemente, pergunto: Que estímulo esse entretenimento oferece? Se posso ousar resposta, o estímulo é o de assinar a TV à cabo ávido por uma programação se não melhor, menos pior.
Pitty que pariu
domingo, 22 de janeiro de 2012
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Almodovar, "A pele que habito" e o artista habitado
“A pele que habito”, o mais recente filme do diretor espanhol Pedro Almodovar. Nunca um filme dirigido por Almodovar pode ser considerado meramente um filme. É sempre um filme seguido de impactos, dilemas, delicadezas, polêmicas, e o que mais afete. Eis a afetação uma referência que talvez possa ser o elemento que num filme denuncia a forma distinta de Almodovar.
A afetação se alastra nas cenas, nos temas, nas tramas, na trilha e nas consagradas cores. É impossível não sentir. A inquietação vem pela abjeção ou pela identificação, no humor ou no drama, no que for, sempre em tons de excesso.
“A pele que habito” é mais um roteiro de estratagema, cuja argúcia do escritor se revela em originalidade no amarrar de uma trama confusa, difusa. O argumento inicial confunde, fazendo crer que tudo ficará a cargo da ética médica e o uso de seres humanos em pesquisas científicas. Entrada razoável, instigante, mas o que se efetivou foi muito além. Toda ênfase seja dada ao muito e ao além.
Desfilam no roteiro neuroses diversas, em destaque a síndrome de Estocolmo. Não ficam de fora problematizações, reflexões, em torno do sexo, gênero e sexualidade. E na ordem dos afetos, o amor passional informa os limites, ou sua ausência, nas ações.
E o estrambótico roteiro funciona graças a uma perspicaz direção e indefectíveis atuações. Sem desmerecer o elenco, Antonio Banderas, vivendo sereno o inverossímil, e Marisa Paredes, metaforizando a sina da mulher que pauta sua existência na concepção, são os extremos destacáveis. Produção imperdível, daquelas em que o filme não acaba. Sai da sala escura e dialoga com o que fica escuro em nós.
A afetação se alastra nas cenas, nos temas, nas tramas, na trilha e nas consagradas cores. É impossível não sentir. A inquietação vem pela abjeção ou pela identificação, no humor ou no drama, no que for, sempre em tons de excesso.
“A pele que habito” é mais um roteiro de estratagema, cuja argúcia do escritor se revela em originalidade no amarrar de uma trama confusa, difusa. O argumento inicial confunde, fazendo crer que tudo ficará a cargo da ética médica e o uso de seres humanos em pesquisas científicas. Entrada razoável, instigante, mas o que se efetivou foi muito além. Toda ênfase seja dada ao muito e ao além.
Desfilam no roteiro neuroses diversas, em destaque a síndrome de Estocolmo. Não ficam de fora problematizações, reflexões, em torno do sexo, gênero e sexualidade. E na ordem dos afetos, o amor passional informa os limites, ou sua ausência, nas ações.
E o estrambótico roteiro funciona graças a uma perspicaz direção e indefectíveis atuações. Sem desmerecer o elenco, Antonio Banderas, vivendo sereno o inverossímil, e Marisa Paredes, metaforizando a sina da mulher que pauta sua existência na concepção, são os extremos destacáveis. Produção imperdível, daquelas em que o filme não acaba. Sai da sala escura e dialoga com o que fica escuro em nós.
domingo, 18 de setembro de 2011
Dois minutos para pensar nos desejos
É o dia do casamento da amiga. A maquiagem e o cabelo estão intocáveis. O zíper do vestido sobe a duras penas. A meia calça pinica a não mais poder. E antes de encerrar os pés na inclemência de um salto alto, é o momento dos adereços. Brincos, de um lado e do outro. Cordão e? E você notou que tem uma daquelas fitas de Senhor do Bonfim no pulso. Não é pequena, não é disfarçável e não combina com o traje “fino”. E agora? Arrebentar ou não a pulseira? Como ficam os pedidos?
Pois bem, esse é um caso típico onde a crença fica no limite. Há quem logo arrebente, há quem vá com a fita, afinal, é só mais um casamento. Na atualidade eu carrego no pulso duas dessas fitas, de cores bonitas, porém nada fáceis: uma roxa e uma rosa pink. Sim, é muita fita pra um só pulso, mas a proporção é mais ou menos essa, pois eu tenho muitos desejos para pouca vida.
Dia desses minha afilhada me passou o scan de sempre. Desconfio que ela me acha um ET. E talvez ela não seja a única a alimentar tal crença. O fato é que ela me perguntou para quê duas fitas no braço. Eu respondi para ela que era uma lembrança de amigos, que visitaram a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Coloca-se a pulseira no pulso e para cada nó se faz um pedido. Os olhos da criança brilharam. Quando eu pensei que ela iria me pedir uma fita, ela me atirou: e quais foram os seus pedidos? Fiquei sem reação! Depois de uns segundos hesitante, expliquei que se os pedidos fossem revelados não seriam realizados. Não satisfeita ela insistiu: tem duas fitas e um monte de nós, algum já realizou? Novamente eu paralisada com a argúcia investigativa, o FBI precisa se valer do potencial da criatura.
A pergunta me deixou encrencada comigo. Eu não lembro dos pedidos. Ok, pra não passar como mentirosa, eu lembro apenas de um dos pedidos, e ele realmente foi realizado. Portanto, nem cogito arrebentar as fitas. Deixarei-as quietas até arrebentarem, e já estou satisfeita. A moral do relato é que pedimos tanto que sequer temos tempo pra contemplar a graça que alcançamos!
Recentemente o destino me pregou uma peça. Arquitetou uma oportunidade muito objetiva que eu iria deixar passar por preguiça, falta de tempo, falta de interesse e a desculpa mais que eu pudesse dar. Um belo dia o estalo. Tudo estava desenhado absolutamente conforme eu desejei, quatro anos antes. Sou só gratidão! E claro, toda dávida merece retribuição.
Pois bem, esse é um caso típico onde a crença fica no limite. Há quem logo arrebente, há quem vá com a fita, afinal, é só mais um casamento. Na atualidade eu carrego no pulso duas dessas fitas, de cores bonitas, porém nada fáceis: uma roxa e uma rosa pink. Sim, é muita fita pra um só pulso, mas a proporção é mais ou menos essa, pois eu tenho muitos desejos para pouca vida.
Dia desses minha afilhada me passou o scan de sempre. Desconfio que ela me acha um ET. E talvez ela não seja a única a alimentar tal crença. O fato é que ela me perguntou para quê duas fitas no braço. Eu respondi para ela que era uma lembrança de amigos, que visitaram a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Coloca-se a pulseira no pulso e para cada nó se faz um pedido. Os olhos da criança brilharam. Quando eu pensei que ela iria me pedir uma fita, ela me atirou: e quais foram os seus pedidos? Fiquei sem reação! Depois de uns segundos hesitante, expliquei que se os pedidos fossem revelados não seriam realizados. Não satisfeita ela insistiu: tem duas fitas e um monte de nós, algum já realizou? Novamente eu paralisada com a argúcia investigativa, o FBI precisa se valer do potencial da criatura.
A pergunta me deixou encrencada comigo. Eu não lembro dos pedidos. Ok, pra não passar como mentirosa, eu lembro apenas de um dos pedidos, e ele realmente foi realizado. Portanto, nem cogito arrebentar as fitas. Deixarei-as quietas até arrebentarem, e já estou satisfeita. A moral do relato é que pedimos tanto que sequer temos tempo pra contemplar a graça que alcançamos!
Recentemente o destino me pregou uma peça. Arquitetou uma oportunidade muito objetiva que eu iria deixar passar por preguiça, falta de tempo, falta de interesse e a desculpa mais que eu pudesse dar. Um belo dia o estalo. Tudo estava desenhado absolutamente conforme eu desejei, quatro anos antes. Sou só gratidão! E claro, toda dávida merece retribuição.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Porque flanar é perambular com inteligência
O título desse post é uma homenagem ao cronista João do Rio. Me valho de uma máxima de João do Rio para endossar a idéia de que o Centro do Rio é uma delícia. As ruas, os prédios, os serviços, o comércio, os tipos urbanos e uma série interminável de detalhes concentrados. A ida ao centro nunca é vazia, pois é ali onde tudo acontece, tudo se resolve. E é também o local onde a cultura fervilha. Música, teatro, cinema, bibliotecas, museus, centros culturais, galerias, exposições e intervenções. Passeando numa terça-feira de clima ameno, fiquei entregue ao que estivesse no caminho. E nesse clima fui brindada com uma exposição e um filme.
Para olhos e ouvidos comuns a vida de um músico, para os aguçados uma miríade de informações vibrantes. Assim é a exposição "Queremos Miles", em cartaz no CCBB. A mostra reúne música, fotografia, história, arte e design enquanto traça a vida, a carreira e a obra de Miles Davis. Meramente imperdível.
Miles Davis é cria de uma família de negros, dita burguesa dos EUA. Sua adolescência fora dividida entre o desejo da mãe que era o de que ele estudasse piano, um instrumento de brancos, e o seu interesse pelo trompete, instrumento maior do estilo musical que o consagraria como um gênio.
A genialidade do músico e o conforto financeiro não o pouparam das complicações e oscilações do metiê artístico, e mesmo da violência justificada pelo preconceito racial.
A exposição é excelente, contando com farto acervo fotográfico, fonográfico, audiovisual e objetos. Os textos que conduzem o visitante são objetivos, enxutos. A montagem apresenta suaves tropeços na construção cronológica, porém nada que comprometa a concatenação entre as fases e facetas da vida do músico e de sua produção.
O outro proveito foi um filme. Sabe quando você tropeça na frente do cinema e quando dá conta está sentado na sala escura a espera de uma surpresa? Exatamente assim assisti “Tudo ficará bem”.
O filme foi produzido e rodado na Dinamarca, com direção e roteiro assinados por Christoffer Boe. Explora as obsessões e crises de criatividade de um roteirista e diretor de cinema, a instigante metalinguagem, onde as angústias oscilam entre a ficção e a realidade, sem barreiras ou distinções.
O roteiro do filme é complicado, convidando ao sono. A montagem não é um padrão, ou seja, oras tudo está coerente e favorável, oras a ousadia dificulta acompanhar a sequência, mesmo sem erros.
Embora o roteiro ou o filme não sejam uma preciosidade, vale a menção favoráveis à atuação de Jeans Albinus, dando vida ao angustiado e alucinado roteirista Jacob Falk.
Como todo e qualquer filme tem um elemento mister, o ponto forte fica por conta da experimentação da fotografia, abusando da superexposição, com o uso vigoroso de halos e enquadramentos pouco convencionais, mesclando a escala do real com a escala de maquetes.
Em suma, supondo a recomendação como a finalidade de um comentário sobre um filme, a minha fica restrita a cinéfilos ou aficionados por fotografia e arte. Aos demais essa produção quase alcança um suplício.
Para olhos e ouvidos comuns a vida de um músico, para os aguçados uma miríade de informações vibrantes. Assim é a exposição "Queremos Miles", em cartaz no CCBB. A mostra reúne música, fotografia, história, arte e design enquanto traça a vida, a carreira e a obra de Miles Davis. Meramente imperdível.
Miles Davis é cria de uma família de negros, dita burguesa dos EUA. Sua adolescência fora dividida entre o desejo da mãe que era o de que ele estudasse piano, um instrumento de brancos, e o seu interesse pelo trompete, instrumento maior do estilo musical que o consagraria como um gênio.
A genialidade do músico e o conforto financeiro não o pouparam das complicações e oscilações do metiê artístico, e mesmo da violência justificada pelo preconceito racial.
A exposição é excelente, contando com farto acervo fotográfico, fonográfico, audiovisual e objetos. Os textos que conduzem o visitante são objetivos, enxutos. A montagem apresenta suaves tropeços na construção cronológica, porém nada que comprometa a concatenação entre as fases e facetas da vida do músico e de sua produção.
O outro proveito foi um filme. Sabe quando você tropeça na frente do cinema e quando dá conta está sentado na sala escura a espera de uma surpresa? Exatamente assim assisti “Tudo ficará bem”.
O filme foi produzido e rodado na Dinamarca, com direção e roteiro assinados por Christoffer Boe. Explora as obsessões e crises de criatividade de um roteirista e diretor de cinema, a instigante metalinguagem, onde as angústias oscilam entre a ficção e a realidade, sem barreiras ou distinções.
O roteiro do filme é complicado, convidando ao sono. A montagem não é um padrão, ou seja, oras tudo está coerente e favorável, oras a ousadia dificulta acompanhar a sequência, mesmo sem erros.
Embora o roteiro ou o filme não sejam uma preciosidade, vale a menção favoráveis à atuação de Jeans Albinus, dando vida ao angustiado e alucinado roteirista Jacob Falk.
Como todo e qualquer filme tem um elemento mister, o ponto forte fica por conta da experimentação da fotografia, abusando da superexposição, com o uso vigoroso de halos e enquadramentos pouco convencionais, mesclando a escala do real com a escala de maquetes.
Em suma, supondo a recomendação como a finalidade de um comentário sobre um filme, a minha fica restrita a cinéfilos ou aficionados por fotografia e arte. Aos demais essa produção quase alcança um suplício.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Transitando questões
Entramos no carro e nos tornamos um monstro individual. Um desenho animado de Wald Disney ilustra bem essa transformação. O sujeito acorda, toma café da manhã, lê o jornal e vai para a rua como uma pessoa qualquer. Basta entrar no carro e logo se transforma, cheio de ira, se sentindo mais e melhor do que todo e qualquer outro.
O transporte público nos grandes centros urbanos é um problema. E não dos atuais ou dos pequenos. Porém, as coisas podem ser percebidas de modo distinto. Enquanto eu tenho a comodidade do carro posso fechar meus olhos para o desconforto e inconveniência do transporte público. Ou seja, encaro o transporte público como um problema apenas a partir do momento em que me submeto a ele. Lendo de outro modo, me politizo ao me aproximar da coletividade, ao compor a massa.
Acho incrível a insensibilidade dos nossos representantes políticos, mas até que tem lógica. Nunca me deparei com o Sérgio Cabral, o Eduardo Paes ou quem fosse num ônibus, metrô ou barca. Tampouco vi seus filhos matriculados em escola pública ou precisando dos serviços da saúde pública. Como eles se sensibilizam com algo que eles não experienciam? É difícil.
Mas voltando para o transporte, no ônibus ou na barca me obrigo a interagir. Não é ficar conversando com quem está ao meu lado. É lidar com a presença do outro, às vezes muito de perto. É estar para os olhares e também olhar. É captar modos, hábitos, costumes, enfim, observar e relativizar. É respeitar e ser respeitado, é obedecer regras sejam elas escritas ou convencionadas.
Quando de carro me encerro em meu mundo. Me limito a prestar atenção no fluxo dos carros, na minha condução. Ninguém consegue ter a noção exata do que se passa dentro do meu carro. E se me aborreço com algo a reação provável é a mão pesada na buzina. Não ouço o que o outro fala, os outros não me ouvem, e na verdade o que se fala pouco importa mesmo. E parece que o uso do carro vai sendo simbolicamente construído para isso. Já notou nas propagandas o quanto ao comprar um carro você se torna exclusivo e dono do mundo? Aliás, equívoco é colocar o carro no trânsito, porque ou circulam lindos rasgando a noite, ou fazem um Off Road. Engarrafamento e relação com os outros não é comum nas propagandas dos automóveis.
Enfim, tudo isso para tentar enxergar o transporte de modo diferenciado. Para quem escreve, para quem cria, para quem observa, os transportes coletivos são como laboratórios, onde pegamos inspiração para crônicas, contos, poesia e prosa. Já o carro é um laboratório para frases de ódio ou de intensa introspecção. Vou oscilando entre um e outro, mas deixando sublinhada a necessidade de melhoria dos transportes coletivos e da educação no trânsito.
O transporte público nos grandes centros urbanos é um problema. E não dos atuais ou dos pequenos. Porém, as coisas podem ser percebidas de modo distinto. Enquanto eu tenho a comodidade do carro posso fechar meus olhos para o desconforto e inconveniência do transporte público. Ou seja, encaro o transporte público como um problema apenas a partir do momento em que me submeto a ele. Lendo de outro modo, me politizo ao me aproximar da coletividade, ao compor a massa.
Acho incrível a insensibilidade dos nossos representantes políticos, mas até que tem lógica. Nunca me deparei com o Sérgio Cabral, o Eduardo Paes ou quem fosse num ônibus, metrô ou barca. Tampouco vi seus filhos matriculados em escola pública ou precisando dos serviços da saúde pública. Como eles se sensibilizam com algo que eles não experienciam? É difícil.
Mas voltando para o transporte, no ônibus ou na barca me obrigo a interagir. Não é ficar conversando com quem está ao meu lado. É lidar com a presença do outro, às vezes muito de perto. É estar para os olhares e também olhar. É captar modos, hábitos, costumes, enfim, observar e relativizar. É respeitar e ser respeitado, é obedecer regras sejam elas escritas ou convencionadas.
Quando de carro me encerro em meu mundo. Me limito a prestar atenção no fluxo dos carros, na minha condução. Ninguém consegue ter a noção exata do que se passa dentro do meu carro. E se me aborreço com algo a reação provável é a mão pesada na buzina. Não ouço o que o outro fala, os outros não me ouvem, e na verdade o que se fala pouco importa mesmo. E parece que o uso do carro vai sendo simbolicamente construído para isso. Já notou nas propagandas o quanto ao comprar um carro você se torna exclusivo e dono do mundo? Aliás, equívoco é colocar o carro no trânsito, porque ou circulam lindos rasgando a noite, ou fazem um Off Road. Engarrafamento e relação com os outros não é comum nas propagandas dos automóveis.
Enfim, tudo isso para tentar enxergar o transporte de modo diferenciado. Para quem escreve, para quem cria, para quem observa, os transportes coletivos são como laboratórios, onde pegamos inspiração para crônicas, contos, poesia e prosa. Já o carro é um laboratório para frases de ódio ou de intensa introspecção. Vou oscilando entre um e outro, mas deixando sublinhada a necessidade de melhoria dos transportes coletivos e da educação no trânsito.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
"You know I'm no good" antes de apelo é digno de aplauso
Amy Winehouse morreu. Muitas lágrimas derramadas pelo mundo, comoção, flores, frases e até brincadeiras de gosto duvidoso a respeito da morte prematura da cantora. Na mídia há uma informação irrefutável: o talento. E outras informações dispersas sobre o consumo abusivo do álcool e drogas.
Os jornalistas, as figuras públicas e o grosso da população não estão poupando opiniões que condenam o comportamento da Amy Winehouse. Entretanto, poucos são os que refletem sobre a vida. Sim, aquele brilho existencial que anima cada um e todos os seres vivos. Aliás, sendo um tanto mais profunda, a dor é pela perda da cantora ou da criatura? Afinal, a perda dos pais e amigos da Amy Winehouse é incomparável com a minha perda e a de quem me lê.
Amy Winehouse teve uma carreira meteórica. O talento estava dentro dela, muito provavelmente chocado com uma boa dose de inconformidade com o mundo como ele é, culminando numa construção artística de sua postura: irreverência, embriaguês, alucinações e fugas para um estado melhor. E como uma artífice desse mundo, ela era também uma habitante assídua dessa arte. Muitos dos seus fãs têm a oportunidade de habitar esse mundo ao som de metais, guitarra, piano, baixo e de uma voz arrasadora. A diferença é que finda a música cada qual volta para sua vida, e Amy era sua própria prisioneira.
O mundo do espetáculo vive da angústia, da inadequação, da inconformidade de alguns seres mais sensíveis. E a sociedade já teve exemplos suficientes para compreender que a morte prematura de criaturas excepcionais não tem nada de inédito, e sim de previsível. Aliás, mais do que previsível eu diria que desejável. Perdoem a franqueza, mas é um ritual psicológico muito bem explorado inclusive pela religião. O mundo do desconforto carece de expiação. E o sacrifício individual para a redenção coletiva é um ritual consagrado, base inclusive da teoria cristã.
A morte da Amy traz dor, mas uma dor consumida com prazer. Um prazer tão instintivo que é negado com veemência, estimulado pela culpa. Duvida? Enquanto a sociedade processa a catarse há na indústria fonográfica um impulso para as vendas: os CDs e Dvds da cantora disparam em quantidade e preço. Rádios, televisões, jornais e revistas preparam especiais para reviver a cantora, ou imortalizar que seja. Há um impulso renovador, uma dor que dá impulso para a vida no afã de preencher um vazio. Agora, para os pais e amigos que perderam uma criatura e não um vulto, meu sincero pesar. Não há CD ou DVD que amenize essa dor, que repare a perda. E que Amy Winehouse, criatura e cantora, habite um mundo que lhe pareça mais razoável.
Os jornalistas, as figuras públicas e o grosso da população não estão poupando opiniões que condenam o comportamento da Amy Winehouse. Entretanto, poucos são os que refletem sobre a vida. Sim, aquele brilho existencial que anima cada um e todos os seres vivos. Aliás, sendo um tanto mais profunda, a dor é pela perda da cantora ou da criatura? Afinal, a perda dos pais e amigos da Amy Winehouse é incomparável com a minha perda e a de quem me lê.
Amy Winehouse teve uma carreira meteórica. O talento estava dentro dela, muito provavelmente chocado com uma boa dose de inconformidade com o mundo como ele é, culminando numa construção artística de sua postura: irreverência, embriaguês, alucinações e fugas para um estado melhor. E como uma artífice desse mundo, ela era também uma habitante assídua dessa arte. Muitos dos seus fãs têm a oportunidade de habitar esse mundo ao som de metais, guitarra, piano, baixo e de uma voz arrasadora. A diferença é que finda a música cada qual volta para sua vida, e Amy era sua própria prisioneira.
O mundo do espetáculo vive da angústia, da inadequação, da inconformidade de alguns seres mais sensíveis. E a sociedade já teve exemplos suficientes para compreender que a morte prematura de criaturas excepcionais não tem nada de inédito, e sim de previsível. Aliás, mais do que previsível eu diria que desejável. Perdoem a franqueza, mas é um ritual psicológico muito bem explorado inclusive pela religião. O mundo do desconforto carece de expiação. E o sacrifício individual para a redenção coletiva é um ritual consagrado, base inclusive da teoria cristã.
A morte da Amy traz dor, mas uma dor consumida com prazer. Um prazer tão instintivo que é negado com veemência, estimulado pela culpa. Duvida? Enquanto a sociedade processa a catarse há na indústria fonográfica um impulso para as vendas: os CDs e Dvds da cantora disparam em quantidade e preço. Rádios, televisões, jornais e revistas preparam especiais para reviver a cantora, ou imortalizar que seja. Há um impulso renovador, uma dor que dá impulso para a vida no afã de preencher um vazio. Agora, para os pais e amigos que perderam uma criatura e não um vulto, meu sincero pesar. Não há CD ou DVD que amenize essa dor, que repare a perda. E que Amy Winehouse, criatura e cantora, habite um mundo que lhe pareça mais razoável.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Alegria é com gente bacana e alergia é com gente chata
Uma criatura sensível que freqüentava meu círculo de amizades na juventude certa vez me mostrou uma música da sua banda que dizia “ninguém te ama por mais de cinco minutos”. Na época achei a frase forte e quase cruel. Hoje em dia percebo de modo diferente, cruel e quase forte. O fato é que independente do que eu acho a frase não se perdeu no tempo, permanece. E é um start interessante para refletir sobre a fragilidade do ser humano.
Dentro de nós tem um buraco que talvez possamos chamar de vazio, carência, enfim, do que for. O fato é que há em nós algo que não comporta a idéia ou sensação do pleno, saciedade, preenchimento.
Todo ser humano, enquanto há vida, precisa de alguma forma lidar com esse hole. E no afã de encontrar o que não existe colocamos tudo e qualquer coisa pra dentro. Comida, bebida, vídeo, música, poesia, eletrônicos, informações, roupa da moda, drogas e até pessoas. Sim, as pessoas também entram no buraco. E talvez as pessoas sejam o que melhor habitam o vazio.
De fato as pessoas não preenchem o inexorável vazio, mas animam. E muito! Elas dialogam com nossas virtudes e vicissitudes, servem de referência para compreendermos a nós mesmos. E tudo vai bem até que as pessoas se vão. Pelos motivos que forem, não importa, elas se vão. O que resta é o ser humano e seu vazio, sem aquele famigerado cinco minutos de amor cantado pela banda do meu amigo.
O meu buraco atende pela alcunha de ansiedade. Dentro dele tem um pouco de tudo! E tem muita gente. MESMO! Especialmente amigos, esses seres que o suposto destino coloca em nossos caminhos. Não conseguindo matá-los, carrego pela vida. E como alegram minha vida, como animam meu vazio! No meu vazio cabe muita coisa, mas prefiro o desânimo no meu vazio a tê-lo habitado por gente chata. Dessa gente tenho alergia.
E você, como tem tratado o seu “vazio”?
Dentro de nós tem um buraco que talvez possamos chamar de vazio, carência, enfim, do que for. O fato é que há em nós algo que não comporta a idéia ou sensação do pleno, saciedade, preenchimento.
Todo ser humano, enquanto há vida, precisa de alguma forma lidar com esse hole. E no afã de encontrar o que não existe colocamos tudo e qualquer coisa pra dentro. Comida, bebida, vídeo, música, poesia, eletrônicos, informações, roupa da moda, drogas e até pessoas. Sim, as pessoas também entram no buraco. E talvez as pessoas sejam o que melhor habitam o vazio.
De fato as pessoas não preenchem o inexorável vazio, mas animam. E muito! Elas dialogam com nossas virtudes e vicissitudes, servem de referência para compreendermos a nós mesmos. E tudo vai bem até que as pessoas se vão. Pelos motivos que forem, não importa, elas se vão. O que resta é o ser humano e seu vazio, sem aquele famigerado cinco minutos de amor cantado pela banda do meu amigo.
O meu buraco atende pela alcunha de ansiedade. Dentro dele tem um pouco de tudo! E tem muita gente. MESMO! Especialmente amigos, esses seres que o suposto destino coloca em nossos caminhos. Não conseguindo matá-los, carrego pela vida. E como alegram minha vida, como animam meu vazio! No meu vazio cabe muita coisa, mas prefiro o desânimo no meu vazio a tê-lo habitado por gente chata. Dessa gente tenho alergia.
E você, como tem tratado o seu “vazio”?
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