segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ir vendo e aprendendo

Fazendo trocadilho com ditado popular. Do jeito que lembrei da história o ditado já me veio trôpego. Ocorreu há cerca de cinco anos, porém me lembro como se hoje fosse.
Fui para Salvador. Essa curta sentença, se detalhada e estendida, nos oferece uma compreensão menos garbosa e mais dramática. Deixe-me expressar mais e melhor: Fui para Salvador, de ônibus, com meu pai, minha mãe e minhas duas irmãs. Ta bom pra você? Faltou apenas o detalhe de misericórdia: só tem uma coisa que eu odeio mais do que a Bahia, os baianos.
Se meu detido leitor tiver capacidade ilustrativa, parca que seja, já vai conseguir compor o cenário: É dramático! E vários elementos serviam para sofisticar essa intrépida aventura. O primeiro deles a localização das nossas poltronas no ônibus. Nós cinco estávamos tais e quais guardiões inveterados do que chamam de banheiro. Sim, chamam de banheiro, mas ao meio da viagem aprendi que aquilo, na melhor das hipóteses, não passava de um tambor de amônia. Na pior das hipóteses uma estação de tratamento de esgoto.
Feliz seria a viagem se o inconveniente fosse apenas essa tal vigília, acompanhada dos odores e do bater incessante da porta do banheiro. Meu pai, devo admitir, foi o que mais se fudeu. Nas primeiras 4 horas de viagem caiu uma chuva tão forte, mas tão forte que Noé já tratava de cortar madeira, juntar pregos, e deixar os bichos sob aviso. Comecei a ouvir um barulho repetitivo que se eu não estivesse no ônibus juraria trata-se de um pinga pinga num saco plástico. No que depender de mim os otorrinolaringologistas morrem de fome, pois era mesmo isso o que eu ouvi. A água da chuva ganhava o ônibus, mais precisamente sobre o assento do meu pai que se cobria com um saco de mercado. Aprendi que as vezes é preciso mais do que uma vida pra ver tanta miséria. Calma, Salvador estava a caminho e aquilo não passava de uma previa. De mais a mais nem dava pra reclamar, afinal de contas meu pai foi jogador de water pólo, tem bastante intimidade com a água.
O ônibus seguia firme, alterando a rota por conta das condições precárias das estradas em virtude das chuvas. Parece noticiário do Jornal Nacional, mas não é. É a realidade das rodovias do nosso Brasil. A precariedade e o pouco caso do público é uma perversidade manjada no intuito de legitimar a privatização. Já estávamos Minas Gerais a dentro e eu pensava na morte como a saída digna e rápida daquela situação. Eu respirava e suspirava ódio, refletindo sobre o quê eu estava fazendo ali naquele lugar, naquelas condições. Uniu-se ao odor de amônia um cheiro de mofo, umidade, promovido por aquele pequeno vazamento que meu pai aparou com saco plástico.
O ar condicionado do ônibus era qualquer coisa! Oras parecia uma câmara frigorífica, oras o ar ficava rarefeito e morno. Aprendi que meio termo é uma utopia.
E o que dizer dos locais de parada para alimentação? Nunca comi tanto biscoito de polvilho na minha vida. Era o que mais se aproximava da honestidade depois dos picolés que já vêem embalados de fábrica. Minha mãe, que tem um apetite de quem bate laje, comprou algo que abusava da denominação coxinha de galinha. Abriu a coxinha ao meio para apreciar o recheio e logo notou que havia uma liga, como baba de quiabo. Foi assim que minha família foi unânime em se vingar nos biscoitos. Aprendi que qualquer tapurú se alimenta melhor do que quem viaja de ônibus do Rio de Janeiro para Salvador!
Claro que nem tudo é só ruim. A sociabilidade no ônibus é interessante. Nas paradas eu reparava numa mulher com duas crianças. Ela fazia uma espécie de ritual. Ajeitava as crianças, penteava os cabelos, guardava uns brinquedos e de uma bolsa pegava uma foto e ficava olhando com devoção. Por vezes, com a foto em mãos, falava qualquer coisa que eu não ouvia muito bem. Imaginei que fosse uma oração pra guiar bem a viagem, pra proteger ela e os filhos, que fosse a foto do tão querido e saudoso marido, ou algo do gênero. Notando a minha persistente observação, lá pra quarta parada ela me contou o segredo. Aquela foto não era de nenhum santo ou entidade, não era de ninguém se não dela mesma, só que de uma época em que ela tinha trinta e cinco quilos a mais do que então. Todas as vezes que iria fazer uma refeição, ou beliscar qualquer coisa, ela se concentrava naquela foto, dizia algumas palavras de pavor e negação àquela imagem, e tomava isso como estímulo para não se exceder. Achei aquilo forte e um pouco triste, mas ela sorria e dizia que funcionava perfeitamente. Afirmava que assim fazia há seis anos. Fica a dica de terapia de choque aos que desejam permanecer magros. Aprendi que podemos ser devotos a tudo e qualquer coisa.
Vinte e quadro horas depois de entrar no ônibus, com muitos e muitos quilômetros rodados, chegamos em Salvador. A primeira visão que tivemos da cidade era de lamentar duas vidas: um gigantesco templo da Igreja Universal. O diabo não teria capacidade de pensar algo tão vil. Ao descer do ônibus ao invés do alívio me tomava o desespero: a volta! Pensando nessas coisas foi que eu perdi quase que totalmente o medo da morte. Quando alguém chega pra mim e diz que foi a Salvador a primeira frase que brota em minha mente é “meus sentimentos”. Aprendi que o prazer e o desprazer, a felicidade e a infelicidade, o bonito e o feio, o bom e o ruim são apenas considerações pessoais. Você leu as minhas. E você, tem considerações para compartilhar?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Narciso, o espelho e a esfinge

Nós estamos reféns do adágio “ver para crer”. Nunca no mundo houve uma difusão tão intensa de imagens. Não damos importância a algo que não esteja registrado em imagens. Se não há imagens, é como se não existisse. Ou seja, algo ganha existência social a partir do momento que sua imagem passa a circular. É interessante refletir um pouco sobre a questão da imagem, fixa ou em movimento.
Os primeiros estudos sobre a câmera escura não seriam eficientes para prever o seu desenvolvimento e popularização no futuro. Da câmera escura para as potentes câmeras digitais da atualidade há um salto promovido por tecnologias óticas no apuro das lentes, e digitais na diversificação e potencialização de recursos. Porém, o fim último é o mesmo: cristalizar uma imagem.
O cinetoscópio e as projeções dos irmãos Lumiere não conseguiriam dar conta do fascínio e êxtase provocado pelas imagens seqüências que pela velocidade nos proporcionam a hipnotizante sensação de movimento. Como se a ilusão do movimento não bastasse, o som introduzido nessas imagens a cada dia nos envolve mais de tão nítidos, potentes e articulados. É melhor ouvir as imagens das películas do que o som propagado do nosso dia a dia, assim como as imagens dos filmes são sempre bem mais elaboradas, desenhadas para o prazer e a narrativa, do que as que anadvertidamente se apresentam aos nossos olhos.
No Brasil a ilustre figura monarca de Dom Pedro II era conhecida pelo entusiasmo e apreço pelas imagens, deixando como legado uma boa coleção de fotos (publicadas no livro “Coleção Princesa Isabel”). Por outro lado, nem todos no Brasil se renderam tão docilmente aos encantos das imagens. Há uma famosa crença de algumas tribos indígenas de que a fotografia aprisiona não meramente a imagem, mas também a alma das pessoas. Essa crença não foi forte o suficiente para diminuir nossa fixação.
Hoje, onde quer que se vá há câmeras. São portáteis, amadoras ou profissionais. Todos estão sendo captados por câmeras, seja nos corredores de um shopping, nos elevadores de apartamentos, em lojas de conveniência, e mesmo nos transportes coletivos. É difícil escapar dos cliques. Aliás, já notaram o quanto é agradável o clique das máquinas? Acredito que já há tecnologia suficiente para silenciar o disparo das máquinas, entretanto, o som é parte do encanto.
Imaginem comigo um ensaio fotográfico. Há um pano cobrindo as paredes do estúdio, iluminação, uma modelo, o fotógrafo, uma bonita máquina e, duvido que alguém consiga imaginar tudo isso sem o som dos disparos.
Nesse exato momento em que sacrificantemente você me lê tem alguém fotografando o Cristo, o Taj Mahal, a muralha da China, a Torre Eiffel, a estátua da liberdade, as pirâmides do Egito e até coisas muito menos importantes na atualidade, como o pai, a mãe ou os avós. E o que dizer de eventos e celebridades? Um evento e uma celebridade são tanto mais importantes quanto mais mirados por câmeras. Diga-se de passagem, se ninguém fotografou esse evento não importa.
Com o crescimento das redes de relacionamentos as imagens batizada pela Adobe Photoshop são muito mais atraentes e importantes, geram muito mais status do que talento, competência, retidão moral, caráter, erudição ou quaisquer outros predicativos que na época de Platão ou Aristóteles eram associados ao bom e belo, que na época do iluminismo representavam avanço e liberdade.
Andando pelas ruas é possível constatar que as pessoas estão muito empenhadas em registrar os momentos. Mas é difícil, complicado mesmo reproduzir nas nossas imagens cotidianas os “momentos chaves” consagrados e cuidadosamente elaborados pelo cinema. O que eu quero dizer é que o dia a dia tem mais de banal do que de surpreendente. Falta às pessoas bom senso para entender isso, e no afã de reproduzir em suas vidas o que se vê em revistas, tv e cinema, acabam forjando num momento qualquer um suposto evento.
Quem nunca viu na monotonia de uma praça um grupo de adolescentes arrumarem uma presepada qualquer no sofrido intuito de conferirem qualquer graça em suas vidas monótonas dignas de serem divulgadas? O mesmo acontece em boates! A música tá chata, a bebida tá horrível, o evento tá sacal, mas as fotos dizem que todos estavam lindos e a saída foi inteiramente maravilhosa.
Desagradável ter que dizer para as pessoas que a vida não é assim o tempo todo. Doloroso ter que dizer que a alegria que propagam por aí em manhãs ensolaradas de sorrisos em que aparecem até os sisos não existe, é construída. E nessa construção de uma vida quase idílica muitos jovens amargam uma existência de frustração. Explica pra um rapaz que ele não vai pegar a Angelina Jolie. Aliás, explica também para algumas moças. Explica para as meninas que o futuro marido dela não se parece com o Brad Pitt, nem na aparência, menos ainda na fortuna.
Deixando de lado o poder avassalador das imagens, acredito que aos poucos surgem formas de reação à violência ideológica das imagens. É uma briga de Titãs, pois uma ideologia só pode ser combatida por outra. Enfim, sem querer ser visionária, afinal já deve estar acontecendo, vai chegar o momento em que só daremos crédito ao que não está falseado em imagens. É ir a uma festa e no dia seguinte comentar: Putz, maravilhosa, não tinha ninguém fotografando, não rola uma só imagem, quem estava estava, quem não estava fica para próxima. Ou comentar sobre uma banda: ninguém viu, só ouvimos! E por aí vai...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pós Modernidade em três tempos

O que é modernidade? Não nos faltam conceitos ou frases prontas para dar conta da categoria modernidade. Talvez haja uma espécie de unanimidade inocente que resolve a modernidade com a idéia de novo, e junto desse novo uma série de atributos positivos. Não pretendo desenvolver uma discussão densa sobre a modernidade, porém me instiga ilustrar um pouco do cotidiano de uma suposta pós modernidade, pautada mais especificamente no neoliberalismo, em três tempos.

No trabalho
Todos os dias, no horário destinado para o almoço, eu me direcionava para o enorme restaurante central da empresa para a qual presto serviços. No restaurante há filas para vários tipos de comida, desde os que devem evitar sal, passando pelas comidas pesadas, uma fila para massas, para omeletes, para comida japonesa e até para quem prefere saladas, como é o meu caso.
Bandeja, um prato, talheres. Eu ia selecionando os ingredientes e uma funcionária me servia. Tratava-se de uma rotina, já que raramente eu me dispunha a comer qualquer outra coisa. A moça que me servia passou a sorrir e me tratar com muito carinho, me achava magrinha, ficava preocupada que eu comia pouco, e sempre insistia em colocar mais disso ou daquilo conforme o meu gosto.
De bandeja em bandeja notei que a barriga da moça aumentava. Sim, ela me confirmou que estava grávida. Eu sempre brincava, sorria, mexia com a barriga dela, me interessava pelo pré-natal.
Decidi que iria dar um presente para o bebê. Queria comprar um presente bacana, mas seria prudente saber o sexo. Todos os dias eu perguntava se ela já sabia o sexo do bebê e nada.A confirmação do sexo do bebê demorava tanto que eu já estava indócil. Ou eu comprava logo um presente, ou acabaria não conseguindo presenteá-la. Tive a impressão de que ela seria afastada, não por licença maternidade, mas por demissão mesmo.
Eu estava certa, tinha mesmo que ter me adiantado com o presente, não consegui presenteá-la! Entretanto, quem foi afastada do trabalho não foi ela, fui eu.

Na Rua
Em todas as cidades do mundo há moradores de rua. Em Niterói, cidade onde moro, há um desses moradores de rua, por sinal bastante simpático e famoso. Ouvindo os gritos da molecada, anos e anos, aprendi que atende pela alcunha de “Tá ligado”.
É bastante comum a associação dos moradores de ruas a doenças mentais. Não sei o quanto isso tem de real e verificável, não sei o quanto isso é um mero clichê. Até mesmo porque em toda loucura há muita lucidez.
Dia desses eu pedalava pela orla e ao longe vi “Tá Ligado”. Quando fiquei próxima pedalei bem devagar, fiquei observando. Enquanto ele atravessava a rua falava alto ao celular. Falava muito, provavelmente com a esposa, e explicava o que ela tinha que fazer em casa, com as crianças, dizia que não iria demorar para chegar e mandava: beijo, amor. Tudo isso muito orgânica e tranquilamente!
Olhei a cena como olharia qualquer pessoa que fizesse o mesmo. Segui meu caminho e a ficha caiu! Ta Ligado tem esposa? Não. Tem filhos? Se tiver não lhe foram apresentados. Ele tem casa? Tão ampla a não caber em paredes, a rua. E o melhor: o celular dele teria créditos pra falar tanto e tão calma e pausadamente? Não. Louco, né? Ele é o reflexo escuro do que somos nós.

No shopping
Se a Modernidade nos forjou conceitos, entre eles está o par oposicional público e privado. O público é de todos, é externo, é o local da ordem estabelecida, das regras e dos direitos, da sociabilidade. Já o privado é um local onde pode-se criar regras, o indivíduo se investe de poder. Na pós modernidade é licenciosa a apropriação do local público, e por vezes até a invasão do privado.
Eu estava no centro de Niterói, fazendo hora entre um compromisso e outro. Cansada, queria sentar à sombra, refletir um pouco, olhar a paisagem, os passantes e até quem sabe ler. Para esse intuito uma praça pública vinha muito a calhar.
Descobri que na cidade em que moro são escassos e quando existentes depredados e abandonados os espaços públicos. Quando há bancos e cadeiras, não há sombra. Quando há sombras, nada de assentos. E em todo e qualquer local em que se pare há sujeira, um alguém que se incomoda com sua estranha presença e vários vagabundos à espreita.
O Centro da cidade já fora o local de praças, comércio e igrejas. Hoje tudo isso está no mesmo lugar, porém o lugar não é mais o mesmo. Por motivos diversos achei o centro hostil à minha parada, sendo propício se muito à circulação. Lá fui eu para o shopping Center.
Ar condicionado, lojas, ambiente termicamente controlado, luminosidade constante, segurança, entretanto, assim como a rua, é pra circular e consumir. Não há muitos locais para sentar, a não ser na praça de alimentação. Em outros termos, se quiser sentar é bom consumir.
Achei, finalmente, dois pares de bancos. Não para surpresa, os bancos são disputados. Na minha primeira investida não tinha lugar vago. Dei uma volta, olhei vitrines e novamente mirei os bancos, dessa vez tinha apenas um senhor, sentei logo ao lado. Em menos de 30 segundos brilhantemente concluí o porquê não tinha ninguém sentado ao lado do senhor: era insuportável.
O sujeito não tinha um, mas dois aparelhos celulares. Aparentemente não era um sujeito de negócios, para o qual o celular é o instrumento de trabalho. Enfim, o que ele fazia era selecionar músicas nos aparelhos e ouvi-las na máxima potência dos autofalantes dos aparelhos. Era como um DJ com duas pickup’s. Intercalava músicas entre um celular e outro. Parecia orgulhoso de sua seleção musical. Começou com Roxette “Must been love”, parou Beyonce no meio de “Halo”, introduziu Ne-Yo “Closer”, depois Akon “Feat kardinal off”, mas só ficou satisfeito com Jota Quest na frase “hoje eu preciso ouvir qualquer palavra sua/ qualquer frase exagerada”...pensei que era sugestivo, e eu poderia sem sacrifício dizer a ele pra ouvir as porras das músicas naquele volume na puta que pariu, na casa do caralho ou algo assim. Fiquei acompanhando essa violência não ao lado dele, mas ao redor, esperando o outro banco vagar. Diga-se de passagem que ele “expulsou” com essa trilha nada menos que seis pessoas que inadvertidamente sentavam ao seu lado. Achei de uma petulância, de um desrespeito, de uma ausência de noção de coletividade, que não consegui sair dali sem observar muito para escrever esse post como um protesto.
Querendo fazer um protesto, fique à vontade nos comentários!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

É bom encontrar / É bom guardar

Felizmente o frenesi da leitura bateu em mim. Eu já estava farta, me achando uma rude por não ter paciência pra ler dez páginas que fossem. Claro, por obrigação acabo lendo muito mais do que isso, mas falo ler espontaneamente. Enfim, combati a distância das leituras com um remédio perfeito: li um bom livro.
Os livros são como as pessoas. Têm capa, orelha com promessas, e conteúdo. O conteúdo e a forma como é construído muda. A capa pode ser discreta ou bastante vistosa. A orelha pode conter informações fidedignas ou falsas. Porém, o balanço desses fatores, para o bem ou para o mal, vezes agrada a uns mais do que a outros, agrada a poucos, e há até os que agradam a quase todos, eis um balanço precioso.
Acredito então que encontrei uma pessoa encantadora, ou seja, um livro que me seduziu. Me fez ler cada uma de suas linhas, parágrafos e páginas avidamente. Não podia ter uns minutos livres e já pensava nele, em tudo o que poderia ter pra me dizer num próximo encontro. Olhava para a capa e suspirava. Sim, a capa faz parte do encantamento. Conforme lia eu sorria. Alguns trechos do que eu lia, não contente de internalizar, eu ainda dividia com alguns pacientes ouvidos que estivessem à disposição. Não nos basta gostar, precisamos de afirmação do nosso gosto.
E assim foram duzentas e tantas páginas. Ficam as imagens, as palavras, os assuntos, as lembranças e um suave gostinho de quero mais. Foi uma relação intensa, de três dias, com muito prazer e nenhuma culpa. Eis uma suposta diferença das relações que temos com pessoas. Finda a leitura, o livro vai para uma estante, aguardar que o tempo o torne novidade. Acho que, assim como fazemos com livros, guardamos muitas pessoas na estante.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ressuscitando e Revisitando

Sumida? EU? Não, apenas uns contratempos. Em verdade estou como todo e qualquer ser no ritmo desenfreado do neoliberalismo, abraçando o mundo com as pernas. Enfim, nem sempre tenho tempo para dedicar a esse blogger e aos meus supostos três ou quatro leitores.
Tomara que minha ausência não tenha sido motivo suficiente para decretar a extinção desse espaço.
Enfim, reavivando o blogger, hoje eu estava lendo freneticamente vários textos e acabei tendo que revisitar uns conteúdos da época da faculdade, em cadernos. Escusado dizer que o caderno de uma criatura como eu, quando existe, é mais recheado de desenhos e recados do que efetivamente de conteúdos das disciplinas. E foi assim que encontrei meu tesouro para um domingo.
Me deliciei lendo bilhetes e recados dos amigos. Revivi as aulas através dos comentários, desenhos, rabiscos, e até encontrei escritos de ordem muito pessoal, como uma carta para a minha afilhada, e uma poesia.
Foi interessante ler tudo e fazer aquela catarse, pensar o que foi e refletir sobre o que está sendo a vida. Por essa perspectiva é que encontrei ânimo em dividir uma poesia com vocês. Não é nada formal ou melancólico demais, muito embora eu me lembre bem da dor que senti quando escrevi, e convém dizer que se aproximava com a dor que eu estava sentindo hoje. A poesia tem um quê de expurgo, porém é mais interessante pela exaltação dos sentimentos numa era de imediatismos, flexibilidades e avanços tecnológicos, com uma leve irreverência. O que em verdade quero dizer é que não é boa, mas pertinente de tão banal, pois aposto que já aconteceu, está acontecendo ou acontecerá com você. Vejamos a poesia, sem título ou data exata:

A separação não dói
Não demora
Duro é o processo
Tão longo que não se vê progresso
Complexo a ter sucesso

Convence meu corpo
A não ter mais seu encosto
Convence meu sábado
A não esperar seu atraso

Faz meu celular não cantar com seu nome
Não vibrar com sua ligação
Não perder bateria por tão longa duração

Quem guia minhas pernas
Pra não rumar pro teu caminho?

Nesse processo truncado
Nem sempre dou pra ficar sozinha
E quando dou sou mais só

E quando finda o dia
Balanço o que podia ter feito
Não estivesse desfeito
Não estivesse desfeita

terça-feira, 19 de maio de 2009

O fetiche da dona de casa

Farei hoje algo que não faço há tempos, uma crônica.

Luzia se levantou com os primeiros raios de sol. Há quem se dê ao luxo de ir da cama para o banheiro, só que Luzia tinha outro percurso. Sua rotina era a da cama para a cozinha, colocar no fogo uma chaleira com água pra passar um café. Enquanto a água esquentava ela ia ao banheiro, se ajeitar. Olhou-se no espelho, lavou o rosto, escovou os dentes e voltou pra cozinha.
José Carlos despertou com o cheiro do café fresco que tomava a casa. Esse sim, fazia o percurso da cama para o banheiro. Fez a barba, tomou banho, se arrumou e sem demora foi pra cozinha, tomar seu café fresquinho.
Enquanto José Carlos retalhava o queijo Luzia mirava aquele sujeito. Cinco anos. Como pôde o tempo lhe passar tamanha rasteira? No primeiro ano tudo eram flores, dava gosto de ver o homem sempre bem disposto, lindo, apaixonado, animado, falante, comparecendo até quando ela menos esperava. As vezes de manhãzinha, antes de ir ao trabalho. Saudosa disposição! Se antes o sujeito lhe dava atenção, carinho e prazer, agora lhe dava nervoso, tédio e trabalho. A mente de Luzia não parava de fazer comparações, das mais clichês possíveis, tudo dentro da oposição “antes e agora”.
Mas há que seguir a vida. Não mudou sequer o semblante, apenas se limitou a ficar com o olhar distante e a boca calada. E como pela manhã os humores nem sempre são os melhores, José Carlos nada reparou de anormal. Se por um lado Luzia se contrariava, por outro se compadecia, crendo que a vida é assim mesmo, com dias mais animados, dias menos.
José Carlos se despediu num tom despreocupado e Luzia lá ficou arrumando a louça do café, se divertindo passando a vassoura no chão, dando de comer aos cachorros, jogando uma água no quintal, arrumando a cama, dobrando lençóis, pondo roupa pra lavar, regando as plantas e enfim, deixando sua casa de subúrbio no jeito.
Numa pausa antes de fazer o almoço Luzia pensou que deveria se arrumar mais, investir no visual, comprar umas bijouterias, coisas para alegrar e reavivar seu ímpeto de mulher. Colocou uma sopa de ervilha no fogo, e foi dar um pulinho rapidinho no Centro, bater perna no Saara. Enfim, de Mesquita para o Centro do Rio, lá foi Luzia.
O Saara era um mundo se colorindo aos olhos de Luzia. Pessoas, camelôs, roupas, eletrônicos, acessórios, brinquedos, bijuterias, e um sem número inutilidades para o lar. Pensou ter achado o paraíso do plástico: prato, copos, bandejas, baldes, bacias, porta pregador, tigela, taça de sobremesa, espátula de bolo, concha de feijão...O dinheiro não era compatível com a quantidade de mercadorias inúteis desejadas por Luzia. Em abono da verdade sequer teria fim a dar àquele mundo de cacarecos. Continuava perambulando, linda, ouvindo gracejos daqui e dali. Os gracejos lhe eram muito bem vindos, polindo o ego meio abalado da dona de casa. Quantos mais ouvia, mais se empinava e sorria tímida.
Já numa de fechar o passeio Luzia saboreou uma esfiha com um copo de suco de caju, promoção de ocasião numa lanchonete. Traçada a esfiha passou o guardanapo de papel grosso na boca, o qual levou-lhe dos lábios o que lhe restava do batom. Respirou fundo, seguiu em direção ao ponto de ônibus, rumando para casa.
Ao chegar à esquina de casa ouvia crianças rindo, levadas de cachorros e muita gente dispersa na rua. Se aproximando mais, viu um caminhão do corpo de bombeiros e logo lembrou: a sopa de ervilha. Caiu no susto!
Abrindo vagarosamente os olhos, Luzia via as coisas turvas. Sentiu o toque firme de uma mão lhe amparando o braço e uma voz encorpada perguntando se ela estava bem. Conforme sua visão ia melhorando, Luzia ia amolecendo diante da imagem que se formava. Era o De Paula, segundo lera no bordado na lateral do uniforme. A troca de olhares não deixou dúvidas.
No dia seguinte a manhã foi bem diferente. José Carlos acordou com as malas prontas, com suas roupas ainda cheirando a fumaça do incêndio do dia anterior. A casa estava bagunçada, mas nem por isso Luzia a arrumou. Tomou um banho daqueles, ficou maravilhosa e pronta para a alegria. Hoje ela tinha um encontro marcado com o prazer: Ia ter com o De Paula. Eita fogo providencial!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Cuidado com os Desejos

Desde a mais tenra idade somos movidos pelos nossos desejos. Alguns alcançamos e comemoramos muito, outros alcançamos e sequer nos damos conta. Fiz um balanço dos meus desejos e concluí que não sou a criatura mais feliz do mundo, e nem conheço quem o seja, porém devo admitir que tive a maioria dos meus desejos realizados.
Um dos primeiros e maiores desejos, que tenho consciência, foi a bicicleta. Eu queria tanto uma bicicleta que quando chegava perto de uma eu tinha até dor de barriga. Aos sete anos, de aniversário, meu avô me deu uma bicicleta: uma Brandani, verde metálica. Lembro-me da bicicleta como se a visse hoje, e os anos não diminuíram a fissura por bicicleta.
Entre 14 e 15 anos eu queria um computador. Lembro-me de ver um IBM aptiva numa loja no shopping, com um vídeo tosco de um tubarão. Nossa, novamente a tal dor de barriga me consumia. Lembro-me de também ter sentido dor de barriga parecida quando deparei-me numa bienal com um computador que “lia” um livro do Paulo Coelho. A escolha dele não era das melhores, mas o feito me deixou perplexa. Era hiper atrativo, porém aquilo não estava à venda. Em abono da verdade, se estivesse à venda pra mim não iria fazer diferença. O fato era que eu precisava de um computador! E numa bela noite, do nada, meu pai me adentra em casa, cheio de peso e fios, e não era nada menos que um computador: um IBM 386, rodando o Windows 3.11. Hoje sei que ele não era grandes coisas, mas pra mim, naquele momento, era melhor do que o foguete que foi pra lua. Eu não consegui dormir por uma semana. Até hoje sou viciada em computador, adoro. E ainda passo noites sem dormir por conta dele.
Há os desejos que demoram um tanto mais pra se concretizarem, sobretudo os imateriais. Lembro-me de ir para a faculdade e no caminho eu seguia com os olhos um rapaz que ainda freqüentava colégio. Ele era lindo, vestia roupas de marca, vira e mexe eu o deparava ficando com uma menina ou outra no caminho, e enfim, embora traída, eu o desejava. Terminei a faculdade, me envolvi em um milhão de roubadas. Esse ser sumiu não apenas dos meus olhos, mas também da minha memória. Eis que numa tarde qualquer eu pedalava minha querida bicicleta, não a Brandani e sim uma Caloi 100, e um rapaz se aproxima também pedalando. Era ele! Conversou um pouco e pediu pra ficar comigo. Parece ficção, dá uma bonita cena de filme, mas é a pura verdade. Tão verdade que o cara não era mais o rapaz lindo que me chamava atenção. Os anos não lhe fizeram muito bem. Agora era um homem em roupas que em nada faziam lembrar as que tão bem lhe vestiam no passado, com uma barriguinha desavergonhada, e com o cabelo já bastante falhado. Eu não desejei tanto ele? Ali estava ele! E fiquei, beijei, abracei, acarinhei, apertei, fiquei feliz. Não que o ficar tenha sido ótimo, mas a realização do desejo ocorreu, mesmo que com um atraso de uns dez anos.
Quando adolescente eu ia bastante ao trabalho do meu pai. E entre uma infinidade de funções que as pessoas desempenhavam eu me encantei com a de continuísta. Contudo, eu frequantava os sets de filmagens, e nunca a base da produção. Ou seja, eu via parte das atividades de uma continuísta. Eu desejava estar no lugar da continuísta. Dia desses eu lamentava o stress da minha profissão, e de repente lembrei da adolescente que há mais de quinze anos atrás desejou ser continuísta, com alegria e empolgação. Hoje sou uma continuísta, e nesse minuto declaro a minha vergonha por reclamar do meu trabalho. Afinal, não fui eu que desejei isso? Eu consegui!
Pois bem, partilhei com vocês desejos muito pessoais. Porém, há muitos desejos coletivos. Desejamos enquanto nação ter um presidente vindo das camadas menos favorecidas da população, que tivesse como meta a diminuição das disparidades sociais que tanto denigrem a imagem do nosso país. Nosso desejo foi realizado, entretanto, penso que o desejo coletivo colidiu com um desejo pessoal. Posso estar sendo maniqueísta, e até cruel, mas não covarde. O desejo da nação era ter um presidente justo (seja lá o que isso for), e o sonho do indivíduo que chegou na presidência me parece que era o de não mais ser pobre. Alcançados os desejos, não nos damos conta deles. Termino esse texto que demorou mais de semanas para ser feito iluminando minha mente com as frases de Raul Seixas em “Ouro de Tolo”: “Porque foi tão fácil conseguir/ E agora eu me pergunto "e daí?"/ Eu tenho uma porção de coisas grandes prá conquistar/ E eu não posso ficar aí parado...”.