Nise da Silveira - O Coração da Loucura

(Foto: Divulgação)

Pra começar, uma merecida homenagem. Poderia parar por aí, mas "Nise da Silveira - O Coração da Loucura" é um filme que vai bastante além.  Me limitarei a comentar um ou outro elemento técnico, uma vez que uma análise de aspectos subjetivos de um filme tão intenso renderia facilmente um livro.  

Hospital psiquiátrico, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, década de 1940. O filme começa exigindo pesquisa de figurino, arte, locação e fotografia. Não falha. O hospital tem a estrutura pavorosamente perfeita para a época, o figurino é simples e exato, o mobiliário e objetos de cena estão bem estudados e a fotografia acompanhou no tom a crueza, a sobriedade quase sombria da instituição. E como sou daquelas que ficam na sala de projeção lendo os créditos, percebi que a continuísta foi citada em memória. Pois bem, que a companheira de ofício, que sem dúvida contribuiu com  um ótimo trabalho, descanse em paz.

O roteiro assinado por Flávia Castro e Maurício Lissovsky foi eficiente, preservando verbos imperativos e locuções duras, assertivas quando não puramente arrogantes, perfeitamente relacionáveis ao período, por um lado desenhando o lugar da mulher e por outro o ethos da ciência. Outro mérito do roteiro foi equilibrar uma mulher entre a psicologia, a arte e a política, com uma aura mais perseverante que beligerante.

A trilha assinada por David Feldman é primorosa. Em alguns filmes a trilha sobressai, em outros ela fica aquém, mas nesse filme está orgânica e sensível, guiando as variações das emoções, dando um sabor substancial para as cenas.

A atuação da Glória Pires é sempre um deleite, mas serei cruelmente honesta em dizer que me surpreendi vez por outra confundindo Nise com a personagem Lota de Flores Raras. Posso até colocar na conta da caracterização, época aproximada, mas que confundi, eu confundi. Em nada desabonou as atuações em conjunto, que eram magníficas, oras ternas oras assustadoras, valendo destacar Fabrício Boliveira, Simone Mazzer, Flávio Bauraqui, Roney Villela, Claudio Jaborandy e Augusto Madeira.   


Para encerrar, vale consagrar a direção de Roberto Berliner. Já tem um tempo que andava trabalhando em filmes biográficos, dramatúrgico ou na forma de documentário, mas em Nise parece chamar mesmo a responsabilidade, mostra-se à vontade, conduzindo bem a história. Minha ressalva vai para o efeito que imprimiu na narrativa com câmera solta. Entendo a vontade de transmitir a inquietude, o movimento, o descontrole, mas o recurso legítimo acaba no mero desconforto visual.  No mais, só aplausos e um suspiro pela generosidade de fechar o filme com as imagens de Nise feitas por Leon Hirszman.

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