As verdades que o vento leva

Eu sempre digo, ninguém mente sozinho. Pra mentir é preciso no mínimo duas pessoas, uma pra mentir e outra pra acreditar. A cada dia estou mais convicta de que as pessoas não têm pudor de mentir.
Há quem acredite que mulher minta mais que homem. Mentira! Mulher faz atuações realmente mais sofisticadas, porém mentir por mentir não há como reduzir o feito dos homens. Ou seja, a mentira, em termos quantitativos, não pode ser avaliada por gênero.
Eu estava na barca, ouvindo a conversa alheia. Até aí, tudo sem novidade. Atrás de mim três mulheres me entretiam com sua conversa. E o assunto, tenho até vergonha de dizer (mentira!), era sexo.
Começou com uma dizendo que a primeira vez que fez sexo foi na lua-de-mel. Com essa declaração minhas orelhas ficaram mais em riste do que o membro do noivo. Se a conversa começava com uma mentira destas, daí por diante eu poderia morrer, mas minhas orelhas haveriam de continuar vivas para registrar tudo.
Então, a conversa estava apenas começando. Ainda tinha uns dez minutos de travessia para a mentira rolar solta. E assim foi! A cada declaração uma das amigas duvidava e dava um testemunho mais incrível. Assim, em resposta à primeira vez na lua-de-mel uma das amigas disse ter namorado seis anos e o namorado respeitando a decisão dela. Namorados, por favor, se manifestem. Se meu namorado me respeitasse tanto eu abandonava ele! Vai respeitar assim a puta que o pariu.
O que me deixava mais envergonhada era a desenvoltura das três em conversar tão abertamente sobre sexo, algo mais esperado de pessoas com posturas supostamente modernas, enaltecendo um “orgulho” tão retrógrado, um discurso tão tradicionalista. Tinha horas que eu não entendia nada, aquilo dava nó na minha cabeça. Ora essa, quem me mandou gostar tanto de ouvir a conversa alheia!
Deixando o exemplo das mentiras das moças, vejamos uma conversa de rapazes. Eu estava na sala de espera duma assistência técnica para celulares. O número da minha senha me convidava para a eternidade. Uma pressão me subia à cabeça, quase estourando de ódio, quando uns caras começaram a conversar. Coloquei logo fones nos ouvidos pra ouvir a conversa sem constrangimentos de parecer que estou mesmo prestando atenção neles.
Começaram falando de aparelhos celulares. Era só juntar três letras, quatro números, e a maioria deles já tiveram esse tal aparelho que duvido muito até que já tenha existido. Era fazer um scan, dos pés a cabeça, em cada qual e duvido que um só deles se vestisse com mais de R$25,00. Traje calça surrada, pochete no ombro, camisa fuleira e um ou outro de boné.
A conversa dos caras estava animada. Diferente das mulheres, um nunca duvidava do outro. Dizia que era verdade, e dava um exemplo que superasse o amigo. Um sacou da cintura um celular antigo, disse que já tinha caído muito, já tinha molhado na praia, o visor era rachado, mas funcionava perfeitamente. Todos acharam o máximo e concordaram que bom eram os celulares antigos. Não satisfeito, um sujeito que palitava os dentes (ninguém me disse, eu vi isso!) se coçou, tirou um celular do bolso, abriu o celular e o corpo com a bateria ficou numa mão, o flip na outra. Ele mostrou orgulhoso dizendo: esse aqui funciona perfeitamente, cabe qualquer chip, dá pra usar como rádio, e ainda recebe fax. Bastou pra ser o rei do pedaço.
Depois do celular Lego ninguém mais quis falar sobre o assunto. Era melhor partir pra outra conversa. Tinha um jornal jogado numa mesinha, e estampado na primeira página a foto do Romário. Um deles olhou e disse: o Romário vai virar presidente do Vasco. Todo mundo concordou!
Era preciso uma pauta mais polêmica pra reanimar o pessoal. Chegou um motoboy. Ele sentou do lado de um sujeito e pra quebrar o silêncio disse que tinha sido assaltado. O do palito na boca, que tinha uma voz bem rouca, perguntou o que ele perdeu. O boy disse que perdeu uma moto. Onde? Em Duque de Caxias. Meu irmão, naquela área é foda mesmo. Todo mundo concordou. Aí começou papo violência. Tudo o que se falava parecia cena de filme. Mas era realidade, porque num filme nunca vi tanta bala voando. Era tanto tiro que vez por outra eu me esquivava no reflexo, com medo de uma bala resvalar e me acertar.
O cara do palito na boca parecia impávido, sem achar aquele tiroteio, aquelas histórias bélicas, nada demais. Ele esperou o tiroteio dar uma pausa e disse que estava chegando em casa, quando o caveirão cismou de subir o morro, até que um cara, ele disse um cara e ainda descreveu o sujeito como magro e baixinho, plantou de frente com uma M2 fazendo o caveirão recuar. Todos impressionados, e um desavisado exaltou que era preciso força. Ao que o do palito na boca arregalou os olhos e quase desequilibrando o palito disse: força nada, tem que ter é disposição! Juntando os narizes dos caras dessa sala de espera acho que conseguiríamos um monumento maior que a muralha da China.
Acredito em tudo o que me dizem. Aliás, eu acredito até no que dizem para os outros. Por exemplo, eu acredito que o Ronaldinho achou que Andréia era mulher. Acredito que, como ele disse, nunca usou drogas e que é inteiramente heterossexual. Diga-se de passagem quando ele fala na categoria inteiramente heterossexual me faz ao menos intuir que compreende uma categoria parcialmente heterossexual, que por seu turno pode ser equivalente a parcialmente homossexual. E não acredito só no Ronaldinho. Acredito que Carolina Jatobá e Alexandre Nardone são tão inocentes quanto se defendem, e culpados quanto os acusam.
De minha parte fecho o post assumindo que nunca conto uma mentira. Até invento umas verdades. Algumas bem temporárias, outras mais duradouras. Mas mentira eu não conto. E você, já ouviu alguma mentira, digna de ser partilhada? No que você credita?

Comentários

Ah, mentir todo mundo mente (menos eu - mentira!!=))...
Só q, como vc disse, as mulheres (e alguns homens tb, pra não dizer q tô defendendo as mentiras femininas) mentem "melhor" msm =)

Valeu pelo comentário!

bjus
Eu passei pra conhecer seu blog e adorei. Vc tem umas idéias muito parecidas com as minhas. Eu tbm presto atenção na conversa dos outros ... kkkkkkkkkkkk

Beijosss
Olá, vim dar um alô já que passou pelo beijo de língua...
gostei do que li e vi por aqui...
pitty que pariu, adorei o nome.
beijão...
:P
Jannice Dantas disse…
Tbm to retribuindo a visita. Sobre a mentira, acredito que toda história tem três lados. O seu, o meu e a verdade de como tudo realmente aconteceu.
Tell Aragão disse…
ah... mas, é que quando uma mentira é contada, ela acaba virando uma verdade... pelo menos pra quem conta... e pra quem acredita...
eu, apesar de já ter "levado" na cara, ainda acredito nas pessoas...
bjs

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