Narciso, o espelho e a esfinge

Nós estamos reféns do adágio “ver para crer”. Nunca no mundo houve uma difusão tão intensa de imagens. Não damos importância a algo que não esteja registrado em imagens. Se não há imagens, é como se não existisse. Ou seja, algo ganha existência social a partir do momento que sua imagem passa a circular. É interessante refletir um pouco sobre a questão da imagem, fixa ou em movimento.
Os primeiros estudos sobre a câmera escura não seriam eficientes para prever o seu desenvolvimento e popularização no futuro. Da câmera escura para as potentes câmeras digitais da atualidade há um salto promovido por tecnologias óticas no apuro das lentes, e digitais na diversificação e potencialização de recursos. Porém, o fim último é o mesmo: cristalizar uma imagem.
O cinetoscópio e as projeções dos irmãos Lumiere não conseguiriam dar conta do fascínio e êxtase provocado pelas imagens seqüências que pela velocidade nos proporcionam a hipnotizante sensação de movimento. Como se a ilusão do movimento não bastasse, o som introduzido nessas imagens a cada dia nos envolve mais de tão nítidos, potentes e articulados. É melhor ouvir as imagens das películas do que o som propagado do nosso dia a dia, assim como as imagens dos filmes são sempre bem mais elaboradas, desenhadas para o prazer e a narrativa, do que as que anadvertidamente se apresentam aos nossos olhos.
No Brasil a ilustre figura monarca de Dom Pedro II era conhecida pelo entusiasmo e apreço pelas imagens, deixando como legado uma boa coleção de fotos (publicadas no livro “Coleção Princesa Isabel”). Por outro lado, nem todos no Brasil se renderam tão docilmente aos encantos das imagens. Há uma famosa crença de algumas tribos indígenas de que a fotografia aprisiona não meramente a imagem, mas também a alma das pessoas. Essa crença não foi forte o suficiente para diminuir nossa fixação.
Hoje, onde quer que se vá há câmeras. São portáteis, amadoras ou profissionais. Todos estão sendo captados por câmeras, seja nos corredores de um shopping, nos elevadores de apartamentos, em lojas de conveniência, e mesmo nos transportes coletivos. É difícil escapar dos cliques. Aliás, já notaram o quanto é agradável o clique das máquinas? Acredito que já há tecnologia suficiente para silenciar o disparo das máquinas, entretanto, o som é parte do encanto.
Imaginem comigo um ensaio fotográfico. Há um pano cobrindo as paredes do estúdio, iluminação, uma modelo, o fotógrafo, uma bonita máquina e, duvido que alguém consiga imaginar tudo isso sem o som dos disparos.
Nesse exato momento em que sacrificantemente você me lê tem alguém fotografando o Cristo, o Taj Mahal, a muralha da China, a Torre Eiffel, a estátua da liberdade, as pirâmides do Egito e até coisas muito menos importantes na atualidade, como o pai, a mãe ou os avós. E o que dizer de eventos e celebridades? Um evento e uma celebridade são tanto mais importantes quanto mais mirados por câmeras. Diga-se de passagem, se ninguém fotografou esse evento não importa.
Com o crescimento das redes de relacionamentos as imagens batizada pela Adobe Photoshop são muito mais atraentes e importantes, geram muito mais status do que talento, competência, retidão moral, caráter, erudição ou quaisquer outros predicativos que na época de Platão ou Aristóteles eram associados ao bom e belo, que na época do iluminismo representavam avanço e liberdade.
Andando pelas ruas é possível constatar que as pessoas estão muito empenhadas em registrar os momentos. Mas é difícil, complicado mesmo reproduzir nas nossas imagens cotidianas os “momentos chaves” consagrados e cuidadosamente elaborados pelo cinema. O que eu quero dizer é que o dia a dia tem mais de banal do que de surpreendente. Falta às pessoas bom senso para entender isso, e no afã de reproduzir em suas vidas o que se vê em revistas, tv e cinema, acabam forjando num momento qualquer um suposto evento.
Quem nunca viu na monotonia de uma praça um grupo de adolescentes arrumarem uma presepada qualquer no sofrido intuito de conferirem qualquer graça em suas vidas monótonas dignas de serem divulgadas? O mesmo acontece em boates! A música tá chata, a bebida tá horrível, o evento tá sacal, mas as fotos dizem que todos estavam lindos e a saída foi inteiramente maravilhosa.
Desagradável ter que dizer para as pessoas que a vida não é assim o tempo todo. Doloroso ter que dizer que a alegria que propagam por aí em manhãs ensolaradas de sorrisos em que aparecem até os sisos não existe, é construída. E nessa construção de uma vida quase idílica muitos jovens amargam uma existência de frustração. Explica pra um rapaz que ele não vai pegar a Angelina Jolie. Aliás, explica também para algumas moças. Explica para as meninas que o futuro marido dela não se parece com o Brad Pitt, nem na aparência, menos ainda na fortuna.
Deixando de lado o poder avassalador das imagens, acredito que aos poucos surgem formas de reação à violência ideológica das imagens. É uma briga de Titãs, pois uma ideologia só pode ser combatida por outra. Enfim, sem querer ser visionária, afinal já deve estar acontecendo, vai chegar o momento em que só daremos crédito ao que não está falseado em imagens. É ir a uma festa e no dia seguinte comentar: Putz, maravilhosa, não tinha ninguém fotografando, não rola uma só imagem, quem estava estava, quem não estava fica para próxima. Ou comentar sobre uma banda: ninguém viu, só ouvimos! E por aí vai...

Comentários

Dama de Cinzas disse…
Pior que está assim mesmo!

Acho que tudo está muito rápido, as informaçãoes fazem pilhas pra entrar na nossa mente e o apelo visual é muito importante nesse sentido!

Belo texto!

Beijocas
Lu Ribeiro disse…
estamos num reality sem premiação no final, o povo já sai de casa pensando na foto q vai subir pro orkut... qt mais exposição, mais legal vc é, essa é a lógica desa geração...bjs
jefhcardoso disse…
Gostei da maneira como citou os irmãos Lumiere e da parte em que se lembra do antigo temor indígena.
Não é qualquer sacrifício ler tão agradável texto. Ele flui deliciosamente.
E o que diria Eutífron do Adobe Photoshop, minha cara? (riso discreto).
“Sorrisos em que aparecem até os sisos”; foi bárbaro.
Li toda sua exposição sobre a propagação das imagens como forma absoluta de comunicação e discordo que o dia em que elas serão dispensáveis chegará.
Olhe, sou um desconhecido, entro em vários blogs sempre que posso, para ver o que estão fazendo nessa novíssima literatura e quando encontro pessoas que postam algo tão agradável, original, eu faço o convite para conhecerem meu humilde blog: http://jefhcardoso.blogspot.com/ .
Se aceitar ao meu convite, lhe recomendo a leitura da sessão de contos e poemas com fotos em preto e branco, especialmente O Céu de Anabela.
Abraço: Jefhcardoso fisioterapeuta que escreve por hobby.

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