Garimpando reflexões em Minas

É surpreendente mudar de lugar. É como focar as coisas de modo diferente, tentando ver como os outros vêem. É algo tão absurdo quanto plausível, é uma tentativa inútil e fértil. Inútil porque nunca conseguimos de fato ver o que os outros vêem, entretanto, a tentativa de modificar o nosso olhar em si nos brinda com uma gama infinita de possibilidades positivas.

Malas prontas e lá vamos nós pra um outro lugar. Não importa para onde vamos, mas com que intenções vamos. Se viajamos a trabalho nossos olhos se fecham para o local, para as pessoas e se aguçam somente para o trabalho. Agora, se a viagem é por nossa conta, pra lazer ou pra cumprir protocolos familiares, aí sim, nossos olhos se perdem. Um dos lugares no Brasil que mais me instigam é sem dúvida Minas Gerais. Não à toa é dos maiores estados da federação. É diverso, é extenso, é retrô e é moderno. Tá tudo ali!

A primeira coisa que noto não passa necessariamente pelo olhar. É algo que experimentamos ao longo dos dias, o tempo. O ritmo de tudo é outro. Tudo tão moderado que ouso gracejar que o dia parece que é feito pra descansar, e a noite pra dormir. Os mineiros costumam falar sorrindo que não tem nada pra fazer, mas são mestres em entender que as coisas têm seu tempo. Eis o detalhe cada vez mais massacrado pelo ritmo moderno. O imediatismo violenta a dinâmica das coisas dissolvendo seu encanto. A comida, a festividade, o compromisso, as missões, a agricultura, e até o corpo seguem ritmos temporais próprios, uma sazonalidade que por si não atende à urgência moderna. É difícil e cada vez mais raro perceber as coisas em seu próprio tempo.

É a partir da concepção temporal que me debruço na idéia de paisagem e na composição arquitetônica. Pode-se dizer que quanto maior a intervenção e controle do homem sobre um dado espaço maior seu grau de urbanização. Em locais onde a urbanização se dá com resistência, sem pressa, abundam imagens que mesclam marcas de tempo. São casas reformadas que preservam pedreiras e até a estrutura ou fachada. Há muros de casas recém reformadas que mantém os tijolos de cor alaranjada, escuros como se molhados, e o verde do musgo num contraste entusiasmante. Circulam com a mesma desenvoltura charretes, carros de bois, fuscas, caminhões com carroceria de madeira velhíssima, carros do ano, pickups, motocicletas, bicicletas e veículos caros e novíssimos importados.

O tempo avança e resiste. E não há marca mais consagrada da fração do tempo que a ditada pela tradição religiosa. Sim, em cidades pequenas as igrejas são pontuais! O som dos sinos ganham a cidade. Outra intervenção sonora distinta são os anúncios de falecimento. Estou acostumada a ler notas de falecimento nos jornais, nos elevadores, e as vezes até por mala direta. Todos os dias há anúncio de falecimento, convite pra velório e sepultamento. E as pessoas realmente se mobilizam para prestar uma última homenagem. De minha parte, aos 32 anos, só “prestei tal tipo de homenagem” para duas pessoas e já tem um bom tempo. Tenho uma leve impressão de que menosprezamos, ou tentamos ignorar o lado tão mórbido quanto natural da morte, pois a vida tem que seguir, e ela tem pressa.

Outro elemento interessante é a questão da espacialidade. A segregação espacial não é tão sofisticada e vil como nos centros urbanos. Se há festas elas são nas ruas, de modo a não ser tão dada a distinção social/econômica. As praças são freqüentadas tanto pelos mais ricos quanto pelos mais pobres. A diferenciação entre as pessoas é um fato social total, irrevogável, porém nas cidades menos urbanas não há tantos elementos de distinção, o que grosso modo equivale dizer que a acumulação de renda e/ou bens não muda significativamente as formas de sociabilidade, o entendimento do ser e do mundo. Essa observação soa mais positiva do que se fato é. Não consigo perceber apuros que confiram a tais indivíduos distinções intelectuais, políticas ou artísticas de tão imersos no pragmatismo nascer, procriar e morrer. Do fim ao cabo é isso, mas felizmente não se resume a isso.

Comentários

Lu Ribeiro disse…
só quero saber uma coisa: aprendeu a 'tocar galinha'? rs
Diz disse…
Vc é interessante e escreve bem, não li tudo, dei uma lida- vc escrve mto- precisaria d emais tempo. Gostei do que diz de Minas, do tempo diverso lá nas entranhas, nos vales.
Bj Laura ( li seu comentário sobre o texto do CCalligaris)
isabeau disse…
Lá também quero morar!

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