Retorno Cronicando

Demorei um pouco pra atualizar esse blogger. Não me faltavam histórias, crônicas ou comentários sobre o cotidiano, porém eu queria inflacionar, com um texto absurdamente bom. Mas refleti, e se eu arrumasse um texto absurdamente bom não seria uma produção minha, seria um conto de Oscar Wilde ou quem sabe do José Roberto Toureiro (tenho sempre que enfatizar que é um desperdício um sujeito tão debochado diluir seu talento escrevendo sobre futebol. O bacana do futebol é jogar. Assistir e comentar é se muito um consolo aos sem habilidade no nobre esporte bretão).
Vou me valer menos do talento de escrever e mais do intuito de fazer do despretensioso cotidiano algo extraordinário. Escreverei sobre um episódio recente, que nos brinda com a possibilidade de refletir sobre os limites do próximo e distante, seja de espaço, seja da relação interpessoal.
Enfim, numa quarta-feira estranha acordei zonza. Por sinal, acordei muito mais cedo do que gostaria, e um tanto mais tarde do que deveria. Entre o banho e o café da manhã alguma confusão mental me fez tomar a estúpida decisão de ir para o fundão de ônibus.
Como todas as decisões de um indivíduo liberal são tomadas pelo cálculo, visando maximizar benefícios, pensei: pro caralho que eu vou pegar aquela porra de ônibus lotado. Vou caminhando para o ponto anterior e passar a perna no pessoal do ponto habitual!
Fui para o ponto anterior ao que me ensinaram a pegar o ônibus. Diga-se de passagem, pego ônibus como um analfabeto: mais pela cor do que pelos nomes escritos. Enfim, sei que o ônibus que eu precisava pegar é uma réplica estilizada dos antigos maços de cigarros galaxy. E assim fiquei na função esperar ônibus.
Pessoas passavam, pessoas paravam, pessoas faziam sinal para os ônibus e eu ali, observando bovinamente. Avistei uma senhora que regulava umas oitenta e tantas primaveras, e ela me olhava também. Se não fosse a idade eu acharia que era uma paquera! Ela agarrou meu braço e disse que com aquele casaco enorme eu não iria sentir frio. Concordei, sorri levemente aliviada por não ter tomado uma cantada, e continuei a mirar o horizonte como se meu olhar atraísse meu ônibus. Esforço inútil, nada do meu ônibus aparecer.
Foi distrair do ônibus um segundo e notei que a senhora, quase amante, estava agarrada ao meu braço como um papagaio empoleirado ao ombro de um pirata. Todo o esforço do mundo para eu achar banal aquela situação era pouco, e acredito até que em vão. Não estava me namorando, e pela tranquilidade captei que também não iria me assaltar. Certeza mesmo de que ela não iria me assaltar só adquiri me agarrando com a lei da covardia: ela era bem mais fraca que eu. E lá estava ela, feliz e agarradinha.
Fui aos poucos me acostumando com a idéia, e achei por bem iniciar uma conversa, pra tornar as coisas agradáveis não só pra ela. Eu disse que estava agasalhada porque sentia muito frio. Ela não gastou delicadeza, logo me disse que sentir frio era coisa da idade. Não satisfeita com essa indireta, eu disse que quando gordinha eu sentia muito menos frio. Embalada no assunto ela disse que eu emagreci bem, que eu estava ótima. Aliás, ela disse isso tão convicta que passei a acreditar que nós éramos velhas amigas.
O ônibus da minha agarradinha estava vindo, e ela disse: meu ônibus ali, vamos lá? Aí eu realmente assustei. Eu não ia pegar o ônibus pra Vila Isabel, eu ia pegar o galaxy, e eu disse isso pra ela. Ela sorriu e pediu que eu fizesse sinal por ela. Assim eu fiz, e a coloquei com atenção dentro do ônibus. Sorriu e se despediu.
Fiquei enternecida com a despedida, até porque já estava ficando afeiçoada. Peguei amizade na colega! A hora avançava e eu já estava atrasada. Uma luz divina me iluminou para atravessar a rua e esperar meu ônibus em outro ponto, pois não parecia possível esperar cerca de quarenta minutos por um ônibus num dia de semana. Logo que atravessei avistei meu ônibus descendo do viaduto, vazio, rápido e lindo como um maço de cigarro.

Comentários

Lu Ribeiro disse…
vc é D+!!! vai ver conhecia a velhinha do mesmo lugar q eu: dá vida...rs
Júlia disse…
Adorei!
Gostei do blog, voltarei.
Beijao!
Vanessa disse…
Panela velha é que faz comida boa!
Realmente simpatizei com você!^^
As senhorinhas também tendem a me abordar, mas elas em geral sofrem da solidão senil.Trato-as bem,não pela velha lógica:"um dia eu fico velha também",mas porque os jovens me entretém,mas os velhos são uma companhia que me agrada muito mais(vai entender,eu não sou normal)*-*
Natty disse…
Ao ela dizer que você emagreceu bem, ela tem toda a razão. Lembro que há muitos anos atrás, quando você ainda morava aqui no condomínio, você era bem cheinha. Hoje você está ótima, emagreceu muito bem! E pra velhinha ter dito isso, das duas as uma: ou ela te conhecia há anos (nem que seja de vista), ou ela te conhecia há vidas.
Bom, quanto a isso, nem eu tenho certeza se acredito nessas teorias, mas em todo o caso, o karma de vocês foram bem compatíveis!

Beijos

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