Premiação do Cinema Brasileiro



O cinema é a arte de fazer sonhar. Se um filme consegue fazer o espectador se desligar da realidade, ele funcionou. E embora o deslumbramento do espectador seja a função consagrada da sétima arte, um filme tem inúmeras possibilidades de ser bem sucedido. E esta infinidade de funções é o que percebo como o elemento em suspeição nas premiações.

As premiações são criadas por motivos específicos, embora pareçam apontar objetivamente para o prestígio de bons trabalhos. A história da origem do Oscar é diferente da história do Kikito ou do Urso. Quiçá do Framboesa! E, no caso, o Prêmio do Cinema Nacional é uma celebração com o entusiasmado objetivo de dar visibilidade à produção nacional, com foco na diversidade que nos é peculiar. O evento incita produtores, seduz patrocinadores e ganha expressão para propor mais e maiores incentivos públicos. 

Além dos objetivos "políticos", que nem sempre são levados em conta nas glamorosas ou estrambólicas coberturas, há um distanciamento abissal entre a opinião de quem produz, a crítica especializada, e o senso comum. E é uma tarefa hercúlea conformar todos. 

Partindo para exemplos, a premiação de "O palhaço" como melhor filme nacional não quer dizer que esta foi a melhor produção, a melhor bilheteria ou uma unanimidade na opinião popular. Mas é uma premiação que reúne elementos que favorecem muito o cinema nacional, com inegável peso simbólico. Primeiramente, o diretor é um ator, mostrando que é possível ousar fazer cinema. Além disso, a história rodada tem um ritmo, um tom e um roteiro nada vulgar, decantando a alegria e a tristeza na vida e lida de um artista. Explora nas angústias do personagem um Brasil que fica descoberto pela massacrante cultura televisiva. E foge também do selo padronizador de eficientes produtoras, as quais capturam de modo voraz os investimentos para o cinema, todavia produzindo filmes com a técnica e a estética televisiva.

Enfim, a ideia não é defender a premiação nacional, tampouco concordar mais ou menos com as premiações mundo afora. A intenção é sugerir que, além de ter uma opinião própria sobre quem merece ser premiado, é válido fazer algum esforço para compreender que elementos sustentam as escolhas alheias, sofisticar o pensamento. A propósito, não que vá surpreender alguém, mas devo esclarecer que amei "O Palhaço", que achei sensacional Paulo José ser premiado como melhor ator coadjuvante (O Palhaço) e muito justo Déborah Secco como melhor atriz (Bruna Surfistinha). 

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