Ponto para Kandinsky no Rio de Janeiro


Que o Rio de Janeiro é contemplado com belas paisagens, todos sabem. No entanto, o que nem todo mundo sabe é que a cidade também tem um circuito interessante de arte e cultura que não se restringe a suntuosidade da Biblioteca Nacional ou do Teatro Municipal.  Afinal, há anos profissionais de arte, cultura e entretenimento se empenham em proporcionar à cidade eventos coletivos, espetáculos, mostras e exposições para atender a públicos bem variados. 

Sem desconsiderar galpões, teatros e galerias, entre as instituições que ganham destaque nesse cenário sobressaem, só no centro, o Caixa Cultural, o Centro Cultural Justiça federal, o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e, o maior, mais famoso e visitado deles, o Centro Cultural Banco do Brasil. E justamente esse último abriga as exposições e peças mais disputadas na cidade. E nesse momento a exposição que competindo com as praias e pontos turísticos atrai cariocas e turistas  é "Kandinsky: tudo começa num ponto."

A organização de grandes exposições é uma praxe do centro cultural, mas a montagem/curadoria varia bastante. E a exposição do Kandinsky parece feliz nesse quesito, proporcionando ao público uma narrativa linear, nada surpreendente ou criativa, porém coerente, eficiente e didática. Se a intenção é ser acessível a todo e qualquer público, bingo!

Ousando uma síntese que de modo algum deve substituir a visita e opinião de cada um, a exposição abre reconstituindo a atmosfera em que Kandinsky foi criado, os objetos, pinturas, molduras, formas e imaginário religioso preponderante na Rússia em 1866. Em um período intermediário, faz faculdade de direito e excursões etnográficas, na qual desvendava elementos quase perdidos da cultura de alguns povos isolados como trechos de melodias ou o registro em desenhos de suas habitações, até decidir investir na formação de pintor em Munique, na Alemanha.

Na Alemanha, com intenso diálogo com outros artistas, torna-se um profícuo teórico, investindo em percepções filosóficas que orientavam à percepção da arte para além dos limites figurativos, mas um pintor pouco expressivo. Casa-se e permanece produzindo e pensando o abstracionismo, como um teórico de arte, até que em virtude da guerra é forçado a sair da Alemanha, primeiramente para Suiça e depois para França.

Um vídeo no meio da exposição é, numa visão muito particular, a peça central da exposição, amarrando o que já foi visto com o que virá. Mas como nem tudo é perfeito, poucos são os que têm tempo ou paciência para o vídeo, e ainda que fossem muitos a sala de projeção tem espaço para não mais de 20 pessoas.


E naquele momento em que já estamos pensando que a exposição está acabando, eis que são vistas lindas e enormes nas paredes as obras mais reproduzidas do pintor. É incrível e ele estava com plena razão quando sentenciou que não é preciso o objeto para que a pintura seja expressiva. Em cores, traços, pontos, formas e deformidades, a pintura afeta.

Enfim, vale conferir a exposição, muito boa e de graça! Desejo que todos possam tirar o melhor proveito dessa iniciativa, mas antecipadamente advirto que há mais celulares que olhos atentos, e que a cordialidade, o silêncio e os modos mais disciplinados mandaram lembrança.  





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