Um mais um igual a dois

Hoje não há nada de original ou interessante para elaborar. Apenas pequenas constatações.

Não há como se esquivar da crise do setor aeroviário. Minha perspectiva será a da experiência, ou percepção pessoal, para que vocês possam dimensionar isso num contexto mais amplo e conseguir inserir os desastres recentes no contexto das reengenharias e flexibilizações no mercado de trabalho. Que me lance uma flecha quem consiga dissociar uma coisa da outra.

Por acaso moro num condomínio construído para os aeroviários. Acompanho de perto a quantidade cada vez menor de pessoas empregadas na área que residem por aqui. Além da quantidade, a qualidade de vida dos trabalhadores da aviação, padrão econômico, decaiu drasticamente. Claro, muitos deles já estão aposentados. Mas um funcionário dessas empresas, na atualidade, não tem condições de comprar um imóvel aqui.

Nos anos 80 meus vizinhos eram comissários de bordo e funcionários administrativos de empresas diversas, das que consigo citar sem titubear: Vasp, Varig, Pan Air, Transbrasil, Luftansas e Air France.

É fácil concluir que em 20 anos o país mudou. As mudanças não foram poucas. Mas aqui nos serve a mudança estrutural que dê conta do crescimento populacional. Direto ao ponto, se a população aumentou, se a estrutura precisa abarcar esse número crescido, como é possível o milagre da diminuição dos postos de trabalho? Há aí uma mágica, que embora não consigamos ver, não cabem dúvidas de que pagamos pelas conseqüências.

A exigência de qualificação é grande, o acúmulo de função e o crescimento da carga horária não são sutis, e a redução de direitos trabalhistas é enorme. Terceirizações, as famigeradas cooperativas, seja para segurança, seja para limpeza e demais serviços descentralizam a administração e se refletem num descompromisso de quem contrata para com quem é contratado.

Ainda nas vias do eu, um tanto chata, mas nem por isso irrelevante, é a da experiência que tive na universidade. Ofertas de estágio nas empresas aéreas, como atendente. Precisava estar matriculado, cumprir carga horária, ter inglês e espanhol fluente, boa aparência e em troca um benefício abaixo dos mais baixos estágios. Deve ser mesmo muito honroso trabalhar na aviação, de modo que a honra baste como retribuição pelo serviço prestado.

Escusado seria dizer que dos estagiários, ao menos os que estudaram comigo, nenhum fora aproveitado. De seis em seis meses eram descartados. As vagas de estágio, portanto, eram constantes.

Falando do setor aeroviário parece até que ele é o culpado de tudo. Parece que ele inventou as adaptações do mercado de trabalho nos moldes neoliberais. Não mesmo! Se isso é o que deixei transparecer, cabe a minha retratação. O setor aeroviário é um simples exemplo, um entre vários possíveis. A saúde, a justiça, a segurança, tudo está dominado por esse processo atroz. O que enfatizo é que as modificações sociais não são impunes. Simples assim!

Comentários

Gica disse…
pow legal, vc escreve muito...
Quem sabe qdo eu crescer possa chegar perto de ser tao articuladas assim como vc!!
abçs
Gica

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