Badaladas e Badalações

Coisa boa é dispor de tempo para prestigiar a alma com cultura. E isso foi bem o que me foi proporcionado ontem. Não imaginam como é bom poder flanar pelas ruas do centro da cidade, e encontrar nos lugares que menos se espera eventos que muito têm a ver com você. Direto ao ponto, ontem conheci um espaço cultural, da Caixa econômica, bem próximo a faculdade. E nele estava em cartaz uma mostra de cinema etnográfico. Nada mais propício a um antropólogo.Primeiro de tudo, o local em si dá uma etnografia. As criaturas que frequentam esses espaços privilegiados têm peculiaridades visuais. Qualquer detalhe nelas destoa em comparação aos supostos comuns que compõem a massa da população. A primeira coisa que cai por terra num local desses é uma revista de moda. Todos estão out, seja das roupas e acessórios em voga, seja das cores da estação. Há o movimento "retrô", "vanguarda", o movimento "moda sou eu" e, o mais ousados de todos, o movimento “caguei para a estética”. Meus olhos testemunharam majoritariamente elementos desse último estilo. Eu não seria capaz de descrever todos os elementos que me causaram impacto visual, mas garanto uma angina na Glória Kalil e ataques apeléticos em quaisquer editoras dessas revistas de moda com parcas observações.Deixe-me dar ao trabalho de descrever, grosso modo, uma só criatura. Até a cintura ela era mais uma entre a população, cabelo num corte "nem ligo se cabelereiro tem família pra criar" e uma regata preta. Acessórios discretíssimos, se muito um brinco de pedrinha. Da cintura para baixo começava o pecado. A bermuda era uma calça que virou bermuda na marra, através da falta de maestria das mãos que se valeram de qualquer tesoura cega. Em outras palavras, cortada torta e desfiada despropositadamente. Até aí, pouca coisa impressiona além da coragem. Audácia e estilo a toda prova estava no pisante. A moça usava uma meia final, lisa e preta, estilo cobrador de ônibus. Calçava um tenis dois números acima do seu (o namorado, pai ou irmão... sinto em constatar que alguém ficou descalço), cabendo-me a desconfiança de que assim o fez por estar com as unhas grandes. O modelo do tenis era aqueles runners (todo acolchoado, para corrida ou aeróbica, qualquer atividade de impacto), no tom azul claro com azul marinho e detalhes cinza. Não tentem imaginar!Ah, claro, tinha o filme da mostra. Chamava-se “Entoados”. Estabelecia uma análise extensa sobre a cultura e importância dos sinos, num trabalho etnográfico feito em algumas cidades históricas de Minas Gerais. Minha ignorância palpita que em Mariana e/ou Diamantina. Desse filme fiz reflexões diversas. Nunca poderia supor que o badalar dos sinos fosse uma atividade tão complexa, que envolvia mistérios, técnicas, lendas e distinções sociais, raciais e mesmo de gênero.Entre meus planos de uma vida decrépita e mansa, estava a idéia de fazer um concurso público qualquer numa cidade calma de interior, muito cogitadas as de Minas Gerais. Idealizava fazer o pachorrento circuito trabalho e casa sem trânsito, grandes incidentes violentos, ou o stress padrão dos centros urbanos. À partir desse filme meus planos não parecem tão simples. Hei de procurar uma cidade com tradição religiosa menos arraigada, ou mais grosseiramente, com menos sinos em igrejas. Muito bonito, muito importante, mas consigo viver bem sem tantas badaladas em meu dia-a-dia.

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