O que o trabalho inspira

Em 1880 a princesa Isabel assinou um famigerado documento que decretava o fim da escravidão no Brasil. E assim, por um documento, sem mais nem mais, foi abolida a instituição que durante séculos forneceu mão-de-obra para tocar uma colônia que hoje tem sua soberania e chamamos de país.
Das milhares de indagações a respeito desse processo e de suas conseqüência nesse minuto me instiga como conseguir uma percepção positivada do trabalho. Como não relega-lo às pessoas que não têm liberdade e/ou escolha? Como não tornar o trabalho uma ação pejorativa? Para os brasileiros a resposta a esta pergunta é tão simples que chega a ser despropositado se indagar. A resposta é FINGIR QUE TRABALHA.
Os índices de desemprego, o afrouxamento das leis trabalhistas, as pressões mundial para adoção de medidas neo-liberais, tudo o mais é nada frente ao poder debochado do brasileiro de lidar com situações adversas.
Conheço muitas pessoas que não tem emprego fixo, várias que têm a carteira de trabalho virgem, aliás é nesse grupo que eu alinho, e até quem nem se dê ao trabalho de ir tirar uma carteira de trabalho. Mas o maior número de pessoas que percebo são as que, com ou sem carteira assinada, fingem que trabalham.
Pode parecer loucura minha, mas eu olho para as pessoas e fico imaginando que atividade produtiva elas desenvolvem. Olho pra um vizinho de terno e gravata, mais cheiroso que besouro da Amazônia, cabelo bem cortado, num sapato tão bem conservado que parece até que o dono anda de cadeira de rodas, e vem logo o enigma: o que ele faz?
Simples! O cotidiano é o seguinte: chega no escritório as 9:00h e toma um café conversando com o pessoal até as 10h. Parte então para seu computador e começa a burocracia. Abre a agenda e dá logo três telefonemas. O primeiro pra mãe, o segundo pra esposa ou peguete e o terceiro pra um amigo. Sendo casado telefona pro amigo pra reclamar, sendo solteiro pra aprontar. Vocês pensam que a hora não passa, mas já avançamos para as 11h, e o sujeito ta atarefado. Entra com a senha no computador, baixa os e-mails e toca a apagar as propagandas, ver os slides de power point ou com conteúdo de moral edificante ou pornográfico, repassa as piadas e slides mais ou menos e eis que já são 12h. Desce em bando pra almoçar, passa em lojas pra comprar qualquer coisa inútil que lhe dê consolo por um dia-a-dia tão stressante e volta para o escritório 13:20h. Mais café, com mais bate-papo, até que 14h não tem jeito, tem que voltar pro computador. Navega na internet das 14h às 17h. Toma mais um café, até que chega do nada a emergência de fazer um relatório. Ele só tem até às 18h para relatar as atividades do dia, tudo pra uma reunião no dia seguinte. E faz! São quatro laudas no Word, fonte tamanho 20, espaçamento duplo. Era até mais fácil fazer em power point. Mas enfim, já deu a hora de voltar pra casa. Chega de trabalho por hoje, o sujeito já está exausto. Tal e qual estaria qualquer outra pessoa ainda que não fizesse nada.
E quando vislumbro uma vizinha, tailler de cor mórbita, cabelo tão aprumado como uma peruca Lady (Copacabana, Barata Ribeiro), com aquele cacharrel terrível que o cheiro muito faz lembrar a penteadeira de uma meretriz (vovô se valia bastante dos serviços dessas damas, por isso que sei bem o cheiro), meia-calça kendall na cor da pele (da pele da Pina, porque dá logo pinta que a ridícula tá de meia, tamanho o contraste da cor das pernas com as mãos), uma base no rosto mais grossa que a máscara de Jason, as unhas disputando destaque com as do Zé do caixão, e fechando o modelito um scarpin básico e uma bolsa de couro com fivelas banhadas a ouro da Lui Vitton (camelôs e ciganos conseguem uma réplica que andando rapidinho nem especialista distingue, e La garantia soy yo!). O que ela faz? Que profissão exerce?
É amiga de escritório do sujeito já mencionado. O que supõe que o dia-a-dia deles é bem parecido. A diferença é que enquanto ele navega ela faz os slides de power point que circulam na internet, e as correntes católicas.
Divulgarei aqui, em primeira mão, os sites indispensáveis para as pessoas que “trabalham”:
Google: Aqui é o começo e o fim. É aqui que ele rouba textos para introduzir nos bonitos relatórios. Aqui também, ele e ela, pesquisam bons preços de agencias de viagens, para ir programando o que vão fazer nas férias, nos feriados prolongados e tudo o mais.
Orkut: Alguém vive sem socializar? Então, o sujeito que trabalha tem o direito e dever de estar a par de tudo o que acontece com as pessoas que o rodeia. Fiscalização branda no profile da namorada, ou esposa, para não parecer ciumento e neurótico. Fiscalização moderada nas ex, como um tratamento, pois ele jura que aos poucos vai esquecer ela e parar com esse vício de querer saber o que se passa. E fiscalização intensa nas possíveis, sempre atirando pra tudo quanto que é lado, pois como diz meu sábio e filósofo primo: se eu não “panhar” vem outro e “panha”. As mulheres visitam praticamente os mesmos profiles, só que em relação aos namorados e/ou maridos, pois tá louca de saber como ele reage a tudo isso. Enfim, o orkut é o inferno na terra.
Climatempo: Como é que a pessoa vive sem saber se está sol ou chuva, calor ou frio. Dentro do escritório a temperatura é permanente em cerca de 19º, mas a criatura não vive sem saber como está o tempo lá fora. Além do mais, da pra fazer também aquela análise para o final de semana, feriado, e ver se fica melhor ir à praia ou serra.
Fliperama: pra jogar e/ou baixar alguns games, pois ninguém é de ferro, tem horas que é preciso descontrair.
Horóscopo Virtual, GuruWeb, TerraEsotérico: porque ninguém acredita em horóscopo, tanto quanto nem duvida. Pelo sim, pelo não, não tenho muito mais o que fazer, é melhor dar uma conferida. De repente até um tarô on line. O casamento entre signos.
GloboEsporte: para acompanhar os resultados da rodada, o estadual, o Brasileirão, a Copa América, a Libertadores, o Mundial, e sobretudo a escalação de times deveras importantes como o “XV de Jaú”, “Ferroviária de Araraquara”, “Ìbis”, “América” do Rio de Janeiro e o Paysandu. Sem falar no grid de largada da F1 e o campeonato estadual de basquete. Só com um conteúdo tão denso é que o sujeito está apto a tomar um cafezinho e confraternizar sem se sentir diminuído por falta de assuntos.
O Fuxico: É de extrema relevância saber dos novos affairs da Preta Gil, do mais recente namorado da Galisteu ou Cicarelli, e enfim, essas informações que precisam ser acompanhadas semana a semana, quando não diariamente. O mundo tá rodando e a mulher só lá trabalhando? Não, não mesmo, é preciso uma Dirce para colocá-la ciente do resumo das novelas, da vida dos artistas, celebridades e quem mais coloque o traseiro à mostra.
Oglobo: esta página é tudo. É o que há. É quase como um protetor de tela. Varam janelas ao pé da tela, msn piscando, oito profiles e quatro comunidades do orkut, mas se o chefe passar de uma hora pra outra irá se debater logo com uma página cheia de informações, fundamentais ao bom desenvolvimento do trabalho diário.
Enfim, é dura a vida de um trabalhador. O dia inteiro nesse ambiente insalubre, trabalhando oito horas e as vezes tendo que fazer hora extra, tanta informação, isso acaba com o ser humano. É uma vida árdua, mas alguém tem que fazer. Só mesmo com essa ação inteligente de desobediência profissional, pois já que o patrão finge que nos paga, nós fingimos que trabalhamos. Destorcendo o que foi a estratégia de Gandih é que estão os brasileiros nos escritórios. Pode parecer tolo, mas um processo como este demora uns 200 anos para se consolidar. Agora, se você trabalha e tem mais de dois desses links que apontei em seus favoritos, vamos admitir: você também finge que trabalha!

Comentários

Tell Aragão disse…
kkkkkkk muito bom! ainda bem que minha carteira de trabalho é quase virgem... faço freelas... e uso sandalinhas rasteiras...
o bom desses "trabakhadores" são os nomes dos cargos que ocupam... e preciso um estudo pra entender o que o nome quer dizer... vai ver que é por isso o fingimento... nem eles sabem o que é pra fazer...
vou te lincar lá no meu blog...
mas, digo logo... blog não entra nos favoritos... vai que eu entro nessa sua lista... aí já viu, né?

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