"Meia-noite em Paris": qualquer coisa, da hora, alhures

O que de melhor poderia ocorrer para um sujeito que vive do passado do que ir para o passado? E mais, o que melhor poderia ocorrer a um sujeito que vive imerso na cultura do que ir parar no miolo de sua produção inspiradora? E assim surge o roteiro de “Meia noite em Paris”.

Na embriaguês ansiosa de mudar de vida, sob as luzes da cidade da cultura e da arte, Gil encontra-se com suas ilusões. Os protagonistas de suas alucinações são escritores, músicos e pintores, emblemáticos de uma época que Gil insiste em "reviver".

Neste incrível devaneio Gil tem a companhia do casal Zelda e Scott Fitzgerald, conversa com Ernest Hemingway, observa Picasso e se refere a Braque. Gertrud Stein aceita ler seu livro e lhe apresentar críticas. E como se não bastasse, desabafa ilusões amorosas com o trio Dali, Buñel e Man Ray.

Quando sai da ilusão Gil depara-se com a noiva, a qual, excluindo-se a beleza, em nada lhe anima. É tido como um tolo, um sujeito com dificuldade em lidar com a realidade e que por isso acaba se fixando a um passado, supostamente mais instigante e curtido, como quem se apega a uma idade do ouro. Ao seu redor estão ainda o sogro e a sogra, e um casal de amigos de sua noiva. Todos rígidos, nas linhas mais exatas do sucesso na pós-modernidade: a consagração pelo dinheiro, e a consagração pela intelectualidade legitimada por instituições.

Paris é o cenário. Uma cidade cuja natureza e essência são devotados ao passado. Berço dos fenômenos culturais que fazem borbulhar o ocidente. Woody Allen passeia pelos símbolos da cultura parodiando nossa pseudo-familiaridade. São entes de nossas produções. São vozes que estão em diálogo intenso com a produção não só da arte como expressão do desconforto do mundo, mas também da arte do status quo.

O filme é de reflexões que não se encerram. Portanto, vale passar para os aspectos mais técnicos da produção sem concluir nada. As atuações são de primeira! Porém, há uma espécie de inversão: os personagens principais são atores medianos, e os coadjuvantes são preciosidades. Ponto para Owen Wilson que interpretou um “Woody Allen” muito bom, um pouco menos feio, investindo na fórmula consagrada “o que lhe falta em força física lhe sobra em argumentos”. E é destacável também a indefectível Kathy Bates, segura ao interpretar Gertrud Stein, uma mulher de personalidade imperiosa, com grande habilidade em se relacionar com artistas, entoando uma voz firme que não se inibe em desfilar por vários idiomas.

A trilha sonora não é algo que passe sem crédito nas produções de Woody Allen. Nos planos sequência em que não somos tomados por mirabolantes textos, entra o eficiente e manjado jazz. Entretanto, boa parte da trilha desta vez ficou a cargo do passeio no tempo que o personagem Gil empreendeu. Uma delícia!

Comentários

Olha, nem li tudo porque quero ir lá, quando assistir volto aqui!
Eu fui, e vi, e gostei tanto que posso dizer ser um dos melhores dele, mas não sei se pela identificação do roteiro, ou pela obra em si. Por isso ainda analizando essa questão.

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